Ernest Reisinger
George Whitefield foi um dos maiores evangelistas da história da igreja. Leia as seguintes palavras e observe seu apelo aos pecadores:
“Hoje, eu lhes ofereço a salvação. A porta da misericórdia ainda está aberta. Ainda existe um sacrifício que redime todo pecado, para aquele que receber a Jesus. Ele o envolverá nos braços do seu amor. Converta-se a Jesus, converta-se de sua indignidade; diga-Lhe que você é impuro, vil; não seja incrédulo, mas crente. Por que ter receio de que o Senhor Jesus não o receberá? Seus pecados não constituem um obstáculo; sua indignidade não é um impedimento. Se o seu coração corrompido não o impede de vir a Ele, nada impedirá a Cristo de recebê-lo. O Senhor Jesus se deleita em contemplar pecadores indignos vindo até Ele e se agrada em vê-los prostrarem-se aos seus pés, clamando pelo cumprimento de suas promessas. Se você vier a Cristo deste modo, Ele não o mandará embora, sem outogar-Lhe o seu Espírito. Pelo contrário, o Senhor Jesus o receberá e o abençoará. Não menospreze este amor infinito. Jesus deseja somente que você creia nEle, para que seja salvo. Isto é tudo o que o Salvador amado deseja, para torná-lo feliz: que você abandone seus pecados, a fim de assentar-se eternamente ao lado dEle, na ceia das bodas do Cordeiro.
Permita-me rogar-lhe que venha a Jesus e o receba como seu Senhor e Salvador. Ele está disposto a recebê-lo. Convido-o a vir a Ele, a fim encontrar descanso para sua alma. O Senhor Jesus se regozijará e exultará. Ele o chama por intermédio dos ministros do evangelho. Ó, venha a Jesus, que está agindo para libertá-lo do pecado e de Satanás e trazê-lo para Si mesmo. Abra a porta do seu coração, e o Rei da glória entrará. Meu coração está ardendo; tenho de falar, pois, do contrário, explodirei. Você acha que sua alma não tem valor algum? Considera-a indigna de ser salva? Seus prazeres são mais importantes do que sua alma? Você prefere os deleites da vida à salvação da sua alma? Se isto é verdade, você nunca participará da glória eterna, com Jesus. Mas, se vier a Jesus, Ele lhe concederá sua graça nesta vida e o levará à glória, no porvir. E você entoará louvores e aleluias para sempre. Desejo que este seja o destino feliz de todos os que me ouvem!”
George Whitefield era um calvinista firme. E uma coisa é certa: o calvinismo de Whitefield não diminuiu, de maneira alguma, o seu zelo pelas almas dos homens.
O que é o calvinismo?
O grande teólogo de Princeton, Dr. B. B. Warfield, descreveu assim o calvinismo:
“O calvinismo é o evangelismo em sua autêntica e única expressão; e, quando dizemos evangelismo, estamos incluindo pecado e salvação. Significa total dependência de Deus para a salvação; envolve a necessidade de salvação e um profundo senso desta necessidade, acompanhada por um senso igualmente profundo de nossa incapacidade de satisfazer esta necessidade e de nossa completa dependência de Deus para satisfazê-la. Encontramos uma ilustração desta verdade no publicano que bateu no peito e exclamou: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” Ele não questionou sua capacidade de salvar a si mesmo, ou de ajudar a Deus a salvá-lo, ou de abrir o caminho para que Deus o salvasse. Isto é calvinismo, não apenas algo parecido com o calvinismo, nem algo que se aproxima do calvinismo, e sim o calvinismo em sua manifestação vital. Onde se encontra esta atitude de coração e onde ela se manifesta em palavras diretas e indubitáveis, ali está o calvinismo. Onde se rejeita esta atitude de coração e mente, ali o calvinismo se torna impossível.
Em uma frase, o calvinista é o homem que vê a Deus. Ele obteve uma visão do Inefável e não permitirá que tal visão desapareça de seus olhos — Deus na natureza, Deus na História, Deus na graça. Em todos os lugares, o calvinista vê a Deus em seus fortes passos, sente a obra do poderoso braço de Deus e o pulsar do seu vigoroso coração. O calvinismo é apenas cristianismo. O sobrenaturalismo em favor do qual o calvinista permanece firme é a própria respiração do cristianismo. Sem ele, o cristianismo não existiria.... Portanto, em nossa opinião, o calvinismo surge como a única esperança do mundo.”
John A. Broadus, um dos importantes e respeitados pais dos batistas do Sul, descreveu o calvinismo de seu co-fundador do Seminário Batista do Sul, Dr. James P. Boyce, como nada menos do que um nome técnico para o “sublime sistema de verdades do apóstolo Paulo”.
Charles Haddon Spurgeon, o grande conquistador de almas, disse:
“Utilizamos o termo calvinista apenas por simplificação. A doutrina chamada calvinismo não surgiu de João Calvino; cremos que ela procede do grande fundador de toda a verdade. Talvez o próprio Calvino a derivou principalmente dos escritos de Agostinho, que, sem dúvida, obteve das Escrituras as suas idéias, por intermédio do Espírito Santo de Deus, a partir de um estudo diligente dos escritos do apóstolo Paulo. E Paulo os recebeu do Espírito Santo e do próprio Senhor Jesus, o grande fundador da Igreja. Empregamos o termo calvinismo não porque atribuímos extraordinária importância ao fato de que Calvino ensinou estas doutrinas. Estaríamos sendo justos se lhes déssemos qualquer outro nome, se pudéssemos achar um nome que seria melhor compreendido e que seria consistente com os fatos.”
Spurgeon prossegue, dizendo:
“As antigas verdades que João Calvino pregou, que Agostinho pregou, é a verdade que eu prego hoje. Em caso contrário, seria falso para com a minha consciência e meu Deus. Não posso moldar a verdade; não conheço nada a respeito de lapidar as asperezas de uma doutrina. O evangelho de John Knox é o meu evangelho. E o evangelho que trovejou por toda a Escócia tem de trovejar novamente na Inglaterra.”
Várias atitudes para com o calvinismo
O assunto deste artigo suscita opiniões diferentes na mente das pessoas. A História já testemunhou muitas controvérsias sobre o calvinismo. Este assunto permanece em sua vital importância, no tempo presente. Isto é particularmente verdadeiro à luz do atual afastamento da ortodoxia histórica e bíblica. Infelizmente, muitas opiniões prejudiciais e agradáveis aos homens têm invadido cada aspecto da vida religiosa. Em quase todos os lugares, podemos encontrar pessoas fazendo a velha pergunta de Pilatos: “O que é a verdade?” Existem milhares de opiniões religiosas diferentes que servem como resposta a esta pergunta. Às vezes, esta pergunta é levantada pelos céticos, que duvidam até da existência de uma resposta objetiva. No entanto, esta pergunta é feita, com freqüência, por pessoas sérias que desejam encontrar a saída da confusão religiosa de nossos dias. Esperamos que você a encontre neste artigo.
Embora o cristianismo de nossos dias seja tão diversificado, podemos verificar que entre aqueles que podem ser razoavelmente chamados de cristãos existem apenas duas divisões. As práticas talvez sejam diferentes e pontos de vistas diversos podem ser mantidos, mas as posições fundamentais serão reconhecidas como derivadas de dois sistemas de teologia — calvinismo ou arminianismo. Estes são os termos modernos empregados para distinguir e descrever dois sistemas de pensamento e ensino teológicos amplamente diversos.
O verdadeiro cristianismo deve nos levar aos pés dos apóstolos e, na realidade, aos pés do próprio Senhor Jesus. O ponto de vista que afirmamos e defendemos em seguida, quando admitido corretamente, nos leva ao resultado que acabamos de mencionar.
Nós o chamamos de calvinismo, mas poderia com justiça ser chamado de agostinianismo. Também poderíamos retroceder as páginas da história eclesiástica e designá-lo paulinismo. Não importa o nome que lhe atribuamos, tal nome tem de ser considerado apenas uma conveniência que se tornou necessária por causa de sua aceitação generalizada. Nós mesmos consideramos a utilização deste nome como um erro que tem sido um meio de fomentar muitos sofismas, que surgem não somente em nossos dias, mas também no passado.
Existe em nossos dias um grande ressurgimento deste sublime e gloriosos sistema paulino de verdade bíblica — especialmente entre os batistas do Sul. Estar neste grupo equivale a retornar às nossas raízes doutrinárias. Os fundadores da Convenção Batista do Sul estavam imersos na torrente da verdade bíblica que levou a apóstolo a clamar: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.33-36)
Não vá além das Escrituras
A seguinte advertência deve servir de orientação para aqueles que desejam estudar o calvinismo:
“A importância deste assunto deve nos levar a prosseguir com profunda reverência e cautela. É verdade que os mistérios devem ser abordados com cuidado e que devemos evitar especulações infundadas e presunçosas a respeito das coisas de Deus; mas, se devemos proclamar o evangelho em sua pureza e plenitude, temos de ser cuidadosos em não reter dos crentes aquilo que está declarado nas Escrituras a respeito da verdade exposta pelo calvinismo. Devemos esperar que algumas destas verdades serão pervertidas e injuriadas. Embora o calvinismo seja ensinado com clareza nas Escrituras, a mente entenebrecida considera um absurdo o fato de que Deus existe em três pessoas ou que Ele preordenou todo o curso dos acontecimentos do mundo, de modo que incluísse o destino de cada pessoa. E, ainda que possamos saber do calvinismo apenas aquilo que Deus achou conveniente revelar, é importante conhecermos muito bem o que está revelado; pois, do contrário, Ele não o teria revelado. Devemos ir com segurança aonde as Escrituras nos conduzem.” (L. Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination, pp. 54-55.)
Existem várias distorções por parte daqueles que não sabem realmente o que é o calvinismo bíblico. Muitos deles o chamam de hiper-calvinismo. Alguns acham que, se você crê no ponto de vista antinomiano da “segurança eterna’”, você é um calvinista e os demais ou são arminianos ou são hiper-calvinistas.
Sem dúvida, muitos calvinistas não evangelizam como deveriam. No entanto, isto não ocorre por causa do calvinismo, e sim por causa de um coração frio e indiferente. Muitos arminianos não evangelizam, mas isto também não ocorre por causa da doutrina na qual crêem, e sim por causa da frieza e indiferença de coração.
É verdade que o calvinismo aniquilará alguns tipos de evangelismo, tal como o evangelismo superficial e antibíblico, que é repulsivo aos calvinistas, mas nunca aniquilará o evangelismo bíblico. Isto significa que os calvinistas amam e aceitam o evangelismo verdadeiro, bíblico e centralizado em Deus.
O calvinismo aniquilará o evangelismo centralizado no homem. O verdadeiro calvinismo proporciona ao evangelismo o seu único e correto fundamento doutrinário. Além disso, o calvinismo garante sucesso ao evangelismo. Deus salva pecadores — isto é calvinismo. Deus não somente torna a salvação possível, Ele realmente salva de acordo com seu plano e por meio de seu poder.
A doutrina da eleição é vital ao evangelismo
A doutrina da eleição incondicional é um das doutrinas fundamentais do calvinismo. Devemos observar a distinção entre os meios e a causa.
Deus escolheu tanto os meios como os recipientes da salvação. A sua Palavra nos diz que Ele decidiu salvar seu próprio povo por intermédio da pregação e do testemunho. “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.”
Temos de lembrar que a pregação e a oração constituem os meios e não a causa por que alguém é salvo. A causa é o amor eletivo e incondicional de Deus. Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que “todo aquele” crerá e não perecerá.
A quem se refere “todo aquele”?
“Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim” (Jo 6.37).
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (Jo 10.27).
Por alguns não crêem?
“Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas” (Jo 10.26).
O Pai deu ao Filho algumas ovelhas e nos enviou a pregar, porque este é o meio que Ele utiliza para chamá-las. “Assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste” (Jo 17.2).
As ovelhas virão porque Cristo morreu por elas e orou em favor delas. “É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (Jo 17.9). Jesus orou até pelas ovelhas que viriam, no futuro. “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por zntermédio da sua palavra;” (Jo 17.20); “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.24).
Por que o amor eletivo de Deus é tão importante para missionários e pregadores do evangelho? Porque esta é a doutrina que assegura o sucesso de nossos esforços missionários. Os grandes evangelistas da história da igreja criam na doutrina bíblica da eleição. Esta doutrina é um dos elementos essenciais do calvinismo.
Seria uma atitude sábia da parte dos batistas contemporâneos atentar à exortação do profeta: “Ouvi-me vós, os que procurais a justiça, os que buscais o Senhor; olhai para a rocha de que fostes cortados e para a caverna do poço de que fostes cavados” (Is 51.1).
Os israelitas foram ordenados a relembrar seu passado. A lembrança da misericórdia de Deus, demonstrada no passado, será proveitosa de muitas maneiras. Uma recordação do passado estimulará nossa gratidão; e o povo de Deus está sempre feliz, quando se mostra agradecido. Todavia, nesta época particular da História será proveitoso avaliarmos nosso alicerce doutrinário — “a rocha de que fostes cortados”. Uma honesta consideração do passado nos ensinará a importância da sã doutrina, especialmente como fundamento para a pregação do evangelho. Os batistas sempre tiveram zelo por missões e evangelismo.
Olhando ao passado e considerando os guerreiros da obra de evangelismo e missões, devemos perguntar: “O que aqueles homens criam a respeito de Deus, do homem, do pecado e da salvação?” É fácil descobrir que, em sua maioria, eles eram calvinistas, e seus esforços evangelísticos estavam fundamentados no calvinismo. A sã doutrina norteia toda a verdadeira adoração e o evangelismo; e isto é a essência do cristianismo. A doutrina não somente expressa a verdadeira experiência de conversão, mas também determina a mensagem e os métodos de evangelismo.
O fundamento doutrinário do evangelismo bíblico é tão importante à obra de evangelização quanto os ossos o são para o corpo humano. A doutrina outorga unidade e estabilidade.
O fundamento doutrinário produz o vigor espiritual que capacita o evangelismo a suportar as tempestades de oposição, crueldade e perseguição que freqüentemente o acompanham. Portanto, a igreja que negligencia o verdadeiro fundamento doutrinário do evangelismo bíblico logo enfraquecerá seus esforços evangelísticos.
A falta de um fundamento doutrinário militará contra a unidade, introduzindo o erro e a instabilidade em todos os esforços evangelísticos. É imprescindível que tenhamos um fundamento bíblico correto para o verdadeiro evangelismo centralizado em Deus.
A doutrina molda o nosso destino. Atualmente, estamos colhendo os frutos de um evangelismo não fundamentado nas Escrituras. O grande apóstolo, ao instruir um jovem pastor a respeito da obra de um evangelista, disse-lhe que a doutrina (o ensino) é o primeiro propósito das Escrituras: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino” (2 Tm 3.16).
Quando falamos a respeito de doutrina, não nos referimos a qualquer doutrina, e sim à doutrina que os fundadores de nosso primeiro seminário ensinavam e acreditavam. A doutrina que Boyce ensinou e na qual acreditava era o fundamento de sua devoção, que ele inspirou em outros.
A respeito de quais doutrinas estou falando? Estou falando a respeito daquelas doutrinas que foram definidas, expressas, defendidas e estruturadas pelo Sínodo de Dort, em 1618; as mesmas doutrinas apresentadas na Confissão de Fé de Westminster e no Catecismo de Heidelberg; aquelas doutrinas expressadas na antiga Confissão de Fé Batista de 1689, adotada posteriormente pela Associação da Filadélfia, da qual surgiu a Convenção Batista do Sul.
Estamos falando sobre as doutrinas preciosas que nos apresentam um Deus que salva; não a que apenas torna a salvação possível para pecadores, de alguma maneira, salvarem a si mesmos, por meio de uma decisão ou por cooperação em sua própria salvação. Falo de doutrinas que apontam para um Deus que realmente salva, de conformidade com seu plano e propósito, bem como por intermédio de seu poder.
Estou falando sobre as doutrinas que revelam os três grandes atos do Deus triúno em resgatar pecadores perdidos, ou seja:
1. O amor eletivo do Pai;
2. A poderosa redenção consumada pelo Filho;
3. A chamada eficaz pelo Espírito Santo.
Cada pessoa da Trindade age em favor da salvação do mesmo povo, assegurando infalivelmente a salvação desse povo.
Estas doutrinas fazem a salvação depender de Deus e não da capacidade do homem. Atribuem a Deus toda a glória pela salvação dos pecadores, não dividindo a glória entre Deus e os pecadores. Revelam que a História é apenas a realização do plano predeterminado de Deus. Revelam um Deus que é soberano na criação e na redenção — a Trindade trabalhando em harmonia para a salvação das ovelhas: Deus, o Pai, planejou a salvação; Deus, o Filho, a realizou; e Deus, o Espírito, transmite e aplica eficazmente a salvação. Não existe qualquer conflito na Trindade. As pessoas da Divindade trabalham juntas em favor do mesmo povo: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz”.
Não suportamos a idéia errônea de que Deus fez tudo que podia e agora espera passivamente, enquanto vê o que os soberanos pecadores fazem com um Jesus impotente e patético. Não, Deus realmente salva pecadores — a salvação vem do Senhor.
Os calvinistas crêem que a cruz não foi um lugar que apenas tornou possível a salvação; pelo contrário, a cruz assegura a salvação do povo de Deus (Is 53.11). Estas doutrinas mostram que a cruz revela o poder de Deus para salvar, e não a sua incapacidade de salvar. Deus não foi frustrado na cruz. Ali, Ele era o Mestre-de-Cerimônias. Conforme declarou o apóstolo Pedro: “Sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.23).
Os calvinistas não crêem que o decreto de Deus para salvar o homem o deixa passivo ou inerte. Não! Não! O que acontece é o contrário! A aliança da graça não aniquila o homem, não o reputa um robô ou um ser inanimado. Ela toma posse do homem, conquista todo o seu ser, com todas as suas faculdades, e se apossa dos poderes de sua alma e de seu corpo — no presente e para sempre.
A graça soberana de Deus não aniquila os poderes do homem; pelo contrário, vence a incapacidade do homem. Não destrói a vontade do homem, mas liberta-a do pecado. Não sufoca nem oblitera a consciência do homem; em vez disso, livra-a das trevas. A graça soberana regenera e cria de novo o homem em sua totalidade; e, ao regenerá-lo, leva-o a amar a Deus e a consagrar-se espontaneamente a Ele.
Considerando o passado
Tenho uma antiga convicção de que, além da Bíblia, da qual extraímos tudo o que se refere a Deus e à alma, não existem outros livros que eu recomendaria, para uso devocional e experimental, mais do que os livros escritos por nossos pais calvinistas, tais como John Bunyan, Andrew Fuller, Charles Haddon Spurgeon, Basil Manly, James P. Boyce e John L. Dagg.
Considerando nosso passado e olhando para a rocha da qual fomos cortados, não podemos esquecer alguns homens da Convenção Batista do Sul, pais e líderes que eram calvinistas firmes e comprometidos:
Basil Manly — um historiador disse que Manly desempenhou o papel de regente em orquestrar os acontecimentos que resultaram no surgimento de uma convenção batista conservadora. Manly produziu um resolução bem elaborada em seis pontos que causou a separação entre os batistas do Norte e os do Sul. Esta resolução foi aprovada por unanimidade. Basil Manly era um calvinista de primeira ordem.
James P. Boyce — este foi um dos principais fundadores de nosso primeiro seminário. Depois de sua morte, um de seus ex-alunos, Dr. David Ramsey, fez uma preleção na comemoração do Dia dos Fundadores, em 11 janeiro de 1924. Sua mensagem se intitulava “James Petigru Boyce: God´s Gentleman” (James P. Boyce, o Homem Nobre de Deus). Poucas citações da preleção do Dr. Ramsey contarão a história de que Boyce era um calvinista que amava a alma dos homens.
Dr. Ramsey disse: “Minha contenção é que nenhuma outra teologia, além daquela que envolve um amor avassalador e consumidor pela alma dos homens, pode explicar a vida e o ministério de James P. Boyce. Este amor apaixonado era o motivo que direcionava sua maneira de pensar naquelas primeiras conferências e na preparação daqueles artigos que levaram ao estabelecimento do seminário.
O propósito de ajudar seus colegas permeava todos os seus planos, sua conversa, seus escritos, sua pregação e seu ensino.
O zelo pelas almas exigiu o melhor de seu ser, assim como o sol faz as plantas e flores sobrecarregadas de orvalho se curvarem ao deus do dia.”
O Dr. Boyce não somente amava os homens, mas também a Deus. O Dr. Ransey disse, a respeito deste assunto: “Isto se refere tanto ao amor subjetivo como ao amor objetivo — o amor dos homens para com Deus e o amor de Deus para com os homens”.
Os amigos íntimos de Boyce e cooperadores no estabelecimento do seminário expressaram seus sentimentos a respeito da teologia de Boyce: “Tivemos o grande privilégio de ser dirigidos e instruídos por tal professor no estudo do sublime conjunto de doutrinas do apóstolo Paulo, que, tecnicamente, se chama calvinismo. Este conjunto de doutrinas compele o estudante zeloso a um raciocínio profundo. E, quando o estudo é ministrado por alguém que combina o pensamento sistemático com a experiência fervorosa, tal estudo deixa o aluno à vontade em meio aos mais inspiradores e elevados pontos de vista a respeito de Deus e do universo que Ele criou”.
O legado de Boyce à nossa posteridade é a teologia bíblica expressa em Abstract of Systematic Theology (Síntese de Teologia Sistemática), que não expressa outra coisa, além do que ele ensinava em classe. É o puro calvinismo.
William A. Muller, autor de A History of Southern Baptist Theological Seminary (História do Seminário Teológico Batista do Sul), disse: “Como teólogo, o Dr. Boyce não teve medo de permanecer nas ‘veredas antigas’. Ele era conservador e eminentemente bíblico. Abordava com muita eqüidade pontos de vista que, discutidos os seus diversos aspectos, ele se recusava a aceitar. Apesar disso, seu ensino era decisivamente calvinista, de acordo com o modelo dos ‘antigos teólogos’. Ele abordava as dificuldades relacionadas a certas doutrinas (tais como: Adão – o cabeça de toda a raça humana, a eleição e a expiação) não com o objetivo de silenciar a controvérsia, mas com o propósito de auxiliar o inquiridor sincero.
O Rev. E. E. Folk, escrevendo no Baptist Reflector (Refletor Batista), comentou a respeito das habilidades e dos resultados de Boyce como professor de teologia: “Você tinha de conhecer bem sua própria teologia sistemática, pois, do contrário, não poderia apresentá-la ao Dr. Boyce. E, embora muitos dos jovens seminaristas fossem arminianos, quando chegavam ao seminário, poucos terminavam o curso sem converterem-se às fortes posições do Dr. Boyce, no transcorrer do curso ministrado por ele”. James P. Boyce era um calvinista convicto.
W. B. Johnson, primeiro presidente da Convenção Batista do Sul, era calvinista.
R. B. C. Howell, segundo presidente da Convenção Batista do Sul, era calvinista.
Richard Fuller, terceiro presidente da Convenção, era calvinista.
Patrick Hues Mell, conhecido como “o Príncipe dos Parlamentares”, era professor de grego e latim na Universidade Mercer (Geórgia). Uma das coisas admiráveis a respeito de Mell é que ele foi o presidente da Convenção por dezessete vezes (duas vezes mais do que qualquer outro homem). Mell era um defensor polêmico do calvinismo. A Sra. D. B. Fitzgerald, que morou vários anos na casa de Mell e era membro da Igreja Antioquia, recordou os esforços iniciais dele na igreja:
“Quando chamado a assumir o pastorado da igreja, o Dr. Mell a encontrou em um estado de confusão. Ele disse que certo número de membros estava se desviando para o arminianismo. Ele amava muito a verdade e não poderia respirar dois ares ao mesmo tempo. A igreja era batista e tinha de afirmar as doutrinas peculiares que a denominação lhe havia ensinado. Com aquela ousadia, clareza e vigor de linguagem que o caracterizava, ele pregava aos membros as doutrinas da predestinação, da eleição, da graça gratuita, etc. Dr. Mell disse que sempre tinha de pregar a verdade como a encontrava na Palavra de Deus e deixar o restante com Deus, sentindo que Ele cuidaria dos resultados” (A Southern Baptist Looks at the Doctrine of Predestination - Um Batista do Sul Considera a Doutrina da Predestinação), pp. 58, 59).
Poderíamos multiplicar os nomes de líderes batistas do Sul que eram calvinistas comprometidos e firmes no evangelismo. No entanto, apenas mais um nome será suficiente.
John A. Broadus, um grande pregador e um dos fundadores de nosso seminário, disse: “Aqueles que zombam do que chamamos calvinismo, deveriam também zombar do Monte Blanc. Não pretendemos defender todos os atos e opiniões de Calvino. Entretanto, não compreendo como alguém que realmente entende o grego do apóstolo Paulo ou o latim de Calvino e de Turrentino pode deixar de perceber que estes apenas interpretaram e estruturaram o que o apóstolo ensinou”.
Desde os dias dos apóstolos, nenhum evangelista ou pregador jamais enfatizou tanto a absoluta soberania de Deus como o fez Jonathan Edwards, o grande ganhador de almas. E os atuais promotores do evangelismo centralizado no homem talvez fiquem surpresos, ao descobrirem que a pregação da soberania de Deus produziu muitos frutos. Durante o ministério de Edwards, o avivamento varreu a sua igreja. Ele disse: “Descobri que nenhuma outra mensagem foi mais poderosamente abençoada do que as mensagens em que enfatizamos a doutrina da absoluta soberania de Deus na salvação dos pecadores”.
O Dr. Martin Lloyd-Jones foi um homem que, com alcance internacional, fez mais do que muitos outros em favor do evangelismo bíblico. Ele se via primeiramente como um evangelista. Aqueles que o conheciam de perto também o viam desta maneira. A Sra. Lloyd-Jones foi apresentada, em certa ocasião, a um grupo de homens que, na ausência de seu esposo, elogiavam as habilidades dele. Enquanto os ouvia, a Sra. Lloyd-Jones observou que eles estavam esquecendo a principal característica do ministério de seu esposo e os surpreendeu, afirmando com tranqüilidade: “Ninguém entenderá meu esposo, se não reconhecer que, em primeiro lugar, ele foi um homem de oração e, depois, um evangelista”.
Por ser um calvinista convicto, o Dr. Lloyd-Jones se opunha a algumas das características mais populares do evangelismo moderno. Isto levou alguns que se sentiam desagradáveis com a firmeza do Dr. Lloyd-Jones a alegar que ele era um “professor e não um evangelista”. Em certa ocasião, um crítico desafiou o comprometimento de Lloyd-Jones com o evangelismo, fazendo a seguinte pergunta: “Quando vocês realizaram a última campanha de evangelização na Capela de Westminster”. A resposta de Lloyd-Jones não tinha propósitos humorísticos: “Realizamos campanha todos os domingos”. Quando preparava alunos para o ministério pastoral, ele disse: “Contesto com firmeza e insisto que toda igreja deveria realizar um culto evangelístico todas as semanas”. No ministério de Lloyd-Jones, era o culto de domingo à noite que satisfazia este propósito. Ele manteve essa prática desde o inicio do seu ministério, em 1927, até que o concluiu em 1968.
Onde está a esperança de sucesso no evangelismo?
O calvinismo é a certeza de que seremos bem-sucedidos na obra de evangelismo. É o fundamento e a esperança dos esforços missionários. Se a esperança de pregadores e missionários estivesse no poder e habilidade de converterem pecadores, ou se nossa esperança estivesse no poder e habilidade de os pecadores mortos vivificarem a si mesmos, deveríamos nos desesperar. Mas, quando a esperança dos resultados do trabalho de um obreiro de Deus está na obra do Espírito Santo, o único que pode outorgar vida espiritual, trabalhamos com a expectativa de que Deus fará aquilo que nenhum pregador é capaz de fazer. Podemos estar certos de que Ele chamará eficazmente as suas ovelhas, pelo seu poder, de acordo com a sua vontade, por intermédio da oração e da pregação da Palavra.
Grande parte da confusão moderna a respeito do calvinismo resulta de distorções de seus ensinos. Por esta razão, é vital compreendermos o que o calvinismo não ensina.
O que o calvinismo não é
O calvinismo não é antimissionário. Pelo contrário, o calvinismo fornece o alicerce bíblico para missões (Jo 6.37; 17.20,21; 2 Tm 2.10; Is 55.11; 2 Pe 3.9,15).
O calvinismo não destrói a responsabilidade do homem. Os homens são responsáveis por toda luz que possuem, quer seja a consciência (Rm 2.15), quer seja a natureza (Rm 1.19,20), quer seja a Lei escrita (Rm 2.17-27), quer seja o evangelho (Mc 16.15,16). A incapacidade do homem para fazer o que é reto não o isenta de responsabilidade, assim como esta mesma incapacidade em Satanás não o isenta de responsabilidade.
O calvinismo não torna Deus injusto. A salvação que Ele outorga a incontáveis hostes de pecadores indignos não é uma injustiça para com os demais pecadores indignos (1 Ts 5.9).
O calvinismo não desestimula pecadores convencidos, mas os incentiva a virem a Cristo. “Aquele que tem sede venha” (Ap 22.17). O Deus que convence é o Deus que salva. O Deus que salva é o mesmo que elegeu homens para a salvação. É o mesmo Deus que os convida.
O calvinismo não desestimula a oração. Pelo contrário, o calvinismo nos impulsiona a buscarmos a Deus, pois Ele é o único que pode salvar. A verdadeira oração é motivada pelo Espírito Santo e, por esta razão, está em harmonia com a vontade de Deus (Rm 8.26).
Palavra de Cautela
1. Não é prudente fazer comentários depreciativos a respeito do que a Bíblia ensina, quer você o entenda, quer não.
2. Não é prudente rejeitar o que a Bíblia ensina a respeito de qualquer assunto, especialmente se você não tem estudado o que as Escrituras dizem a respeito daquele assunto.
3. Não é prudente transformar qualquer doutrina em um assunto predileto. Embora a doutrina tenha vital importância, não pode ser separada de toda a verdade do cristianismo.
4. Não é prudente rejeitar qualquer doutrina somente porque ela tem sofrido abusos, tem sido mal utilizada ou confundida. Todas as principais doutrinas da Bíblia têm sido pervertidas e utilizadas com abuso.
5. Não é prudente tentar aprender o que é um calvinista daqueles que não são calvinistas.
sábado, 20 de março de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
Um Esclarecimento Sobre Calvino
Tem sido freqüentemente citado, e merecidamente, que "Quase toda a sabedoria que possuímos, isto é, verdadeira e íntegra sabedoria, consiste de duas partes: o conhecimento de Deus e o de nós mesmos”. (Institutas I.I.1). Que maneira de começar a sua obra-prima. Não é de se admirar que seja repetido com tanta freqüência.
Mas a citações devem ser compreendidas em seu contexto. Muitas vezes, a citação é usada como uma justificativa para a introspecção ou uma autoconsciência psicologizada. Sugere-se que Calvino (Calvino mesmo!), queria entrar em contato com o nosso “eu” interior e que Calvino (Sim, Calvino!) acreditava que não podemos compreender Deus à parte das nossas próprias experiências. Mas este não é o objetivo de Calvino em absoluto.
É verdade, Calvino argumenta que devemos conhecer-nos a nós mesmos para conhecermos a Deus, mas o que precisamos saber é a nossa “vergonhosa nudez" que expõe "uma horda repleta de debilidades”. O conhecimento de si mesmo é indispensável porque a partir da "percepção da nossa própria ignorância, vaidade, pobreza, debilidade", podemos reconhecer que "a verdadeira luz da sabedoria, a virtude perfeita, completa abundância de todo o bem, e pureza de justiça jazem somente no Senhor”. O objetivo não é discernir o tipo de nossa personalidade ou de descobrir nossos dons ou entrar em contato com o nosso passado, embora todas estas coisas tenham o seu lugar. Para Calvino, o conhecimento de si mesmo é essencial, pois só vamos começar a buscar a Deus quando "começarmos a nos tornar descontentes conosco mesmos.”
Calvino continua a dizer que, embora os dois estejam interligados, devemos começar com o conhecimento de Deus. Aqui, novamente, a razão é que devemos saber o quão longe estamos da glória e da santidade de Deus. "Porque sempre percebemos a nós mesmos como justos e íntegros e sábios e santos – este orgulho é inato em todos nós – a menos que por provas inequívocas sejamos convencidos de nossa própria injustiça, infâmia, insensatez e impureza. Além disso, não somos, desse modo, convencidos se olharmos simplesmente para nós mesmos e não para o Senhor, que é o único parâmetro pelo qual este julgamento pode ser aferido"(I.I.2). Devemos conhecer a Deus, não a fim de compreender os nossos sentimentos, temperamentos e história – repito, há um lugar para tudo isso - mas para entendermos nossa necessidade de Deus. Porque quando vemos a Deus como Ele se revelou, "Aquilo que tão maravilhosamente nos impressionava sob o nome de sabedoria, exalará mau cheiro em sua extrema insensatez."
"Conheça a Deus. Conheça-se a si mesmo. Conheça-se a si mesmo para conhecer a sua necessidade de Deus. Conheça a Deus para saber que você não é Deus.” Isso é o Calvin disse.
Mas a citações devem ser compreendidas em seu contexto. Muitas vezes, a citação é usada como uma justificativa para a introspecção ou uma autoconsciência psicologizada. Sugere-se que Calvino (Calvino mesmo!), queria entrar em contato com o nosso “eu” interior e que Calvino (Sim, Calvino!) acreditava que não podemos compreender Deus à parte das nossas próprias experiências. Mas este não é o objetivo de Calvino em absoluto.
É verdade, Calvino argumenta que devemos conhecer-nos a nós mesmos para conhecermos a Deus, mas o que precisamos saber é a nossa “vergonhosa nudez" que expõe "uma horda repleta de debilidades”. O conhecimento de si mesmo é indispensável porque a partir da "percepção da nossa própria ignorância, vaidade, pobreza, debilidade", podemos reconhecer que "a verdadeira luz da sabedoria, a virtude perfeita, completa abundância de todo o bem, e pureza de justiça jazem somente no Senhor”. O objetivo não é discernir o tipo de nossa personalidade ou de descobrir nossos dons ou entrar em contato com o nosso passado, embora todas estas coisas tenham o seu lugar. Para Calvino, o conhecimento de si mesmo é essencial, pois só vamos começar a buscar a Deus quando "começarmos a nos tornar descontentes conosco mesmos.”
Calvino continua a dizer que, embora os dois estejam interligados, devemos começar com o conhecimento de Deus. Aqui, novamente, a razão é que devemos saber o quão longe estamos da glória e da santidade de Deus. "Porque sempre percebemos a nós mesmos como justos e íntegros e sábios e santos – este orgulho é inato em todos nós – a menos que por provas inequívocas sejamos convencidos de nossa própria injustiça, infâmia, insensatez e impureza. Além disso, não somos, desse modo, convencidos se olharmos simplesmente para nós mesmos e não para o Senhor, que é o único parâmetro pelo qual este julgamento pode ser aferido"(I.I.2). Devemos conhecer a Deus, não a fim de compreender os nossos sentimentos, temperamentos e história – repito, há um lugar para tudo isso - mas para entendermos nossa necessidade de Deus. Porque quando vemos a Deus como Ele se revelou, "Aquilo que tão maravilhosamente nos impressionava sob o nome de sabedoria, exalará mau cheiro em sua extrema insensatez."
"Conheça a Deus. Conheça-se a si mesmo. Conheça-se a si mesmo para conhecer a sua necessidade de Deus. Conheça a Deus para saber que você não é Deus.” Isso é o Calvin disse.
quinta-feira, 18 de março de 2010
CREDO
Credo dos Apóstolos
(Séculos III e IV)
Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso Senhor; concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria; que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado,2 e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos; que subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, na santa igreja católica, na comunhão dos santos, na remissão de pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.
Credo de Nicéia
(325 a.d. - revisado em Constantinopla em 381 a.d.)
Cremos em um só Deus, Pai, Todo-Poderoso, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne pelo Espírito Santo e da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim.
E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas. E na Igreja una, santa, católica e apostólica. Confessamos um só batismo para remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém.
Credo de Calcedônia
(451 A.D.)
Fiéis aos santos Pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo, consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado; gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus; um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza, concorrendo para formar uma só pessoa e em uma subsistência; não separado nem dividido em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas desde o princípio acerca dele testemunharam, e o mesmo Senhor Jesus nos ensinou, e o Credo dos santos Pais nos transmitiu.
Credo de Atanásio
(Séculos IV e V)
1.Todo que for salvo: antes de todas as coisas é necessário que se apegue à fé católica;
2.Tal fé, se não guardada plena e imaculada, sem dúvida trará perdição eterna.
3.E a fé católica é esta: Que nós adoramos um Deus em Trindade, e Trindade na Unidade;
4.Sem confundir as pessoas, sem dividir a Substância.
5.Porque há uma Pessoa do Pai, outra do Filho, e outra do Espírito Santo.
6. Mas a divindade do Pai, do Filho, e do Espírito Santo é uma só: a glória igual, a majestade, coeterna.
7. Como o Pai é, tal é o Filho, e tal é o Espírito Santo.
8. O Pai incriado, o Filho incriado, e o Espírito Santo incriado.
9. O Pai incompreensível, o Filho incompreensível, e o Espírito Santo incompreensível.
10. O Pai eterno, o Filho eterno, e o Espírito Santo eterno.
11. No entanto não são três eternos mas um eterno.
12. Porque também não há três incriados nem três incompreensíveis, mas um incriado e um incompreensível.
13. Assim do mesmo modo o Pai é Todo-Poderoso, o Filho, Todo-Poderoso, e o Espírito, Todo-Poderoso.
14. No entanto não são três Todo-Poderosos, mas um Todo-Poderoso.
15. Assim o Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus;
16.No entanto não são três Deuses, mas um Deus.
20. Também somos proibidos pela religião católica de dizer: Há três Deuses, ou há três Senhores.
21. O Pai não é feito de coisa alguma, nem criado nem gerado.
22. O Filho é do Pai somente; não feito, nem criado, mas gerado.
23. O Espírito Santo é do Pai e do Filho; não foi feito, nem criado, nem gerado, mas deles procede.
24. Assim, há um Pai, e não três Pais; um Filho, e não três Filhos; um Espírito Santo, e não três Espíritos Santos.
25. E nesta Trindade nenhum deles é antes ou depois do outro; nenhum é maior ou menor do que outro.
26. Mas as três pessoas são coeternas e coiguais.
27. De modo que em todas as coisas, como dito acima: a unidade na Trindade e a Trindade na unidade deve ser adorada.
28. Aquele, portanto, que for salvo deve assim pensar sobre a Trindade.
29. Além disso é necessário à eterna salvação que, corretamente, se creia também na encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo.
30. Porque a fé correta é que creiamos e confessemos que nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e homem.
31. Deus, da substância do Pai, gerado antes dos séculos; e homem da substância de sua mãe, nascido no mundo.
32. Deus perfeito e homem perfeito, de alma racional e subsistindo em carne humana.
33. Igual ao Pai quanto à divindade, e inferior ao Pai quanto à humanidade.
34.Que, embora seja Deus e homem, não é, porém, dois, mas um Cristo.
35. Um, não pela conversão da divindade em carne, mas levando da humanidade a Deus.
36. Inteiramente um, não pela confusão da substância, mas pela unidade da pessoa.
37. Porque assim como a alma racional e a carne são um homem, também Deus e homem são um Cristo;
38. Que padeceu para a nossa salvação, desceu ao inferno, ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia;
39. Subiu aos céus e está assentado à direita do Pai, Deus, Todo-Poderoso;
40. De onde virá julgar os vivos e os mortos.
41. Em cuja vinda todos os homens ressuscitarão em corpo;
42. E prestarão contas de suas obras.
43. E os que fizeram o bem irão para a vida eterna, e os que fizeram o mal, para o fogo eterno.
44. Esta é a fé católica: quem nela não crer fielmente não pode ser salvo.
(Séculos III e IV)
Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso Senhor; concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria; que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado,2 e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos; que subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, na santa igreja católica, na comunhão dos santos, na remissão de pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.
Credo de Nicéia
(325 a.d. - revisado em Constantinopla em 381 a.d.)
Cremos em um só Deus, Pai, Todo-Poderoso, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne pelo Espírito Santo e da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim.
E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas. E na Igreja una, santa, católica e apostólica. Confessamos um só batismo para remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém.
Credo de Calcedônia
(451 A.D.)
Fiéis aos santos Pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade; verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo, consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado; gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus; um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis; a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza, concorrendo para formar uma só pessoa e em uma subsistência; não separado nem dividido em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas desde o princípio acerca dele testemunharam, e o mesmo Senhor Jesus nos ensinou, e o Credo dos santos Pais nos transmitiu.
Credo de Atanásio
(Séculos IV e V)
1.Todo que for salvo: antes de todas as coisas é necessário que se apegue à fé católica;
2.Tal fé, se não guardada plena e imaculada, sem dúvida trará perdição eterna.
3.E a fé católica é esta: Que nós adoramos um Deus em Trindade, e Trindade na Unidade;
4.Sem confundir as pessoas, sem dividir a Substância.
5.Porque há uma Pessoa do Pai, outra do Filho, e outra do Espírito Santo.
6. Mas a divindade do Pai, do Filho, e do Espírito Santo é uma só: a glória igual, a majestade, coeterna.
7. Como o Pai é, tal é o Filho, e tal é o Espírito Santo.
8. O Pai incriado, o Filho incriado, e o Espírito Santo incriado.
9. O Pai incompreensível, o Filho incompreensível, e o Espírito Santo incompreensível.
10. O Pai eterno, o Filho eterno, e o Espírito Santo eterno.
11. No entanto não são três eternos mas um eterno.
12. Porque também não há três incriados nem três incompreensíveis, mas um incriado e um incompreensível.
13. Assim do mesmo modo o Pai é Todo-Poderoso, o Filho, Todo-Poderoso, e o Espírito, Todo-Poderoso.
14. No entanto não são três Todo-Poderosos, mas um Todo-Poderoso.
15. Assim o Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus;
16.No entanto não são três Deuses, mas um Deus.
20. Também somos proibidos pela religião católica de dizer: Há três Deuses, ou há três Senhores.
21. O Pai não é feito de coisa alguma, nem criado nem gerado.
22. O Filho é do Pai somente; não feito, nem criado, mas gerado.
23. O Espírito Santo é do Pai e do Filho; não foi feito, nem criado, nem gerado, mas deles procede.
24. Assim, há um Pai, e não três Pais; um Filho, e não três Filhos; um Espírito Santo, e não três Espíritos Santos.
25. E nesta Trindade nenhum deles é antes ou depois do outro; nenhum é maior ou menor do que outro.
26. Mas as três pessoas são coeternas e coiguais.
27. De modo que em todas as coisas, como dito acima: a unidade na Trindade e a Trindade na unidade deve ser adorada.
28. Aquele, portanto, que for salvo deve assim pensar sobre a Trindade.
29. Além disso é necessário à eterna salvação que, corretamente, se creia também na encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo.
30. Porque a fé correta é que creiamos e confessemos que nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e homem.
31. Deus, da substância do Pai, gerado antes dos séculos; e homem da substância de sua mãe, nascido no mundo.
32. Deus perfeito e homem perfeito, de alma racional e subsistindo em carne humana.
33. Igual ao Pai quanto à divindade, e inferior ao Pai quanto à humanidade.
34.Que, embora seja Deus e homem, não é, porém, dois, mas um Cristo.
35. Um, não pela conversão da divindade em carne, mas levando da humanidade a Deus.
36. Inteiramente um, não pela confusão da substância, mas pela unidade da pessoa.
37. Porque assim como a alma racional e a carne são um homem, também Deus e homem são um Cristo;
38. Que padeceu para a nossa salvação, desceu ao inferno, ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia;
39. Subiu aos céus e está assentado à direita do Pai, Deus, Todo-Poderoso;
40. De onde virá julgar os vivos e os mortos.
41. Em cuja vinda todos os homens ressuscitarão em corpo;
42. E prestarão contas de suas obras.
43. E os que fizeram o bem irão para a vida eterna, e os que fizeram o mal, para o fogo eterno.
44. Esta é a fé católica: quem nela não crer fielmente não pode ser salvo.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Algumas coisas que os não-calvinistas deveriam saber sobre o Calvinismo- por Colin Maxwell
Esta é uma tentativa de corrigir alguns dos mal-entendidos sobre o Calvinismo. Isto não pretende ser uma defesa doutrinária detalhada das Doutrinas da Graça.
1) Calvinismo e Hiper-calvinismo são pólos opostos. Os termos não devem ser usados como sinônimos. Um hiper-calvinista não é apenas um calvinista zeloso. Ambos consideram o outro como calvinistas “mistos”. Ninguém chama a si mesmo de hiper-calvinista.
2) Sim, os calvinistas se dividem em várias facções. Mas existem muitas escolas doutrinárias, e.g. Dispensacionalismo, Governo da Igreja, Adoração... nós cantamos somente Salmos ou usamos hinos? Quais hinos? Nós usamos música? Qual música? Com que conjunto de textos nós baseamos nossa tradução da Bíblia? É o Textus Receptus que é importante ou a (KJV) AV ? Ou ambos? Etc.
3) O termo livre-arbítrio precisa ser definido para evitar confusão. Calvinistas poderão afirmá-lo ou negá-lo, dependendo do que eles acham que você quis dizer... Isto algumas vezes leva a acusações de contradição. Consulte as Confissões Calvinistas padrão, e.g. a Confissão de Fé de Westminster, capítulo 9, para uma definição de termos.
4) O termo livre agência não é automaticamente o mesmo que livre-arbítrio quando usado por um calvinista. Ele é o termo calvinista preferido para livre-arbítrio. Preferido de forma a evitar a confusão tratada no ponto acima.
5) Calvinistas acreditam na responsabilidade do homem, mas negam sua capacidade de arrepender-se e crer no Evangelho. Os dois termos não são sinônimos. Calvinistas crêem que a incapacidade do homem de arrepender-se e crer é causada por seu próprio pecado, e a sua incapacidade não anula a sua responsabilidade.
6) Calvinistas não acreditam que os homens são fantoches, bonecos de madeira ou robôs, mas seres responsáveis e tratados assim por Deus, mesmo quando decaídos.
7) Calvinistas não são fatalistas. Calvinistas acreditam que Deus ordenou o fim e também os meios para este fim. Portanto, eles crêem no evangelismo como o meio que Deus usa para cumprir sua intenção de salvar os eleitos. Não é verdadeiro dizer que os calvinistas acreditam que Deus salva homens sem o Evangelho. Calvinistas acreditam em oração.
8) Calvinistas acreditam que é obrigação dos homens arrependerem-se e crerem no Evangelho. Esta é um de nossas disputas com alguns hiper-calvinistas.
9) Calvinistas acreditam que o Evangelho deve (para citar Calvino) ser pregado indiscriminadamente aos eleitos e réprobos (Comentário de Isaías 54:13), visto que não sabemos quem são eles, mas somente Deus.
10) Calvinistas não limitam o valor ou mérito ou dignidade do sangue de Cristo. Eles limitam a intenção do sangue para salvar qualquer um além dos eleitos. Nós estamos satisfeitos o bastante (como estava João Calvino) com a afirmação de que o sangue de Cristo é suficiente para o mundo inteiro, mas eficiente somente para os eleitos.
11) Calvinistas não pregam apenas os Cinco Ponttos e nada mais. Pelo menos não mais que Dispensacionalistas que pregam apenas sobre profecias ou Pentecostais que só pregam sobre os dons do Espírito, etc.
12) Calvinistas não lêem os Cinco Pontos em todos os textos da Escritura. Muitos dos maiores comentários bíblicos, amados e valorizados por todos os cristãos (e.g, Mattew Henry) foram escritos por calvinistas.
13) Calvinistas acreditam que os homens podem resistir ao Espírito Santo. Eles acreditam que mesmo os eleitos podem resistir ao Espírito Santo, e o fazem... mas somente até o momento em que o Espírito regenera seus corações de forma que não resistam mais a Ele. Os não-eleitos efetivamente resistem a ele por toda a vida.
14) Calvinistas não acreditam que todos os homens são levados se debatendo e gritando irresistivelmente a Cristo. Nós acreditamos na graça irresistível. A vontade não é ignorada na salvação. Nenhum homem vem a Cristo involuntariamente, ou se lamenta por ter sido trazido.
15) Calvinistas não acreditam que existam almas lá fora que querem ser salvas, mas não podem ser salvas porque não são eleitas.
16) Calvinistas, sem ter acesso ao Livro da Vida do Cordeiro, vêem todo homem como potencialmente eleito e pregam o evangelho a ele.
17) Calvinistas acreditam na eleição incondicional mas eles não acreditam na salvação incondicional. A não ser que o homem nasça de novo, ele não entrará no Reino dos céus (João 3:3). A não ser que ele se arrependa, ele perecerá (Lucas 13:3). A não ser que seja convertido, etc... todas estas são condições da salvação.
18) Calvinistas acreditam que a regeneração precede a fé em Cristo. Nós não confundimos o termo regeneração com justificação ou salvação. O Espírito de Deus regenera o pecador eleito capacitando-o a abandonar seu pecado e voluntariamente abraçar a Cristo e então ser justificado pela fé e salvo pela eternidade. Regeneração, portanto, não é sinônimo de justificação ou salvação assim como convicação de pecado não é sinônimo de conversão a Cristo.
19) Perseverança dos santos não significa que os calvinistas crêem que eles podem levar sua querida vida sem qualquer referência a observar o poder de Deus. Isto simplesmente significa que nós cremos que os cristãos provarão ser vencedores, de acordo com 1 João 5:4-5, etc...
20) Alguns calvinistas usam a frase redenção particular em oposição à expiação limitada porque eles podem ver como a posição da redenção geral também limita a expiação, embora de uma forma diferente, isto é, ela não realiza a tudo que se pretende.
21) Calvinistas não acreditam que João Calvino era infalível... não mais que Metodistas acreditam que João Wesley foi infalível ou Dispensacionalistas dão a Schofield ou John Darby a palavra final.
22) Embora os calvinistas creiam que a graça salvadora e o arrependimento são dons de Deus, dados somente a seus eleitos, eles não crêem que Deus exercita a fé por eles ou arrepende-se por eles. O pecador eleito, capacitado pelo poder de Deus, realmente se arrepende e crê por si mesmo.
23) Embora possa não haver um meio-termo real entre a posição calvinista e aquela dos não-calvinistas, ainda assim muitos calvinistas acreditam que os dois lados realmente pregam o Evangelho. Apesar de nossas diferenças em muitos dos detalhes, um homem que prega que Cristo morreu pelos ímpios e que a obra foi suficiente para salvar aquele que se arrepende e crê está realmente pregando o Evangelho. Nós nos regozijamos na pregação do Evangelho de John Wesley tanto quanto na de George Whitefield, apesar de (naturalmente) considerarmos Whitefield um teólogo melhor.
24) Não há nenhuma contradição ou paradoxo entre a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. Em nenhum lugar a Escritura diz que o homem é responsável porque ele é livre, ou seja, a afirmação de que a responsabilidade pressupõe a liberdade é uma falácia. Pelo contrário, a Escritura ensina que o homem é responsável porque Deus, que é soberano, o considerada assim. Além do mais, Paulo, em Romanos 1, afirma que é o conhecimento inato do homem que o torna responsável pelos seus atos, e não a sua suposta liberdade. Isso está de acordo com o que Jesus diz em João 9:41: “Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado”.
25) Embora os calvinistas creiam que até mesmo atos pecaminosos são ordenados por Deus (Efésios 1:11/Provérbios 16:4), isso não faz de Deus o autor do pecado. Concordamos com o Dr. Clark, que ao escrever seu livro sobre o problema do mal, disse: “Deus não é o autor deste livro, como os arminianos seriam os primeiros a admitir; mas ele é a causa última dele, como a Bíblia ensina. Todavia, eu sou o autor. Autoridade, portanto, é um tipo de causa, mas há outros tipos. O autor de um livro é a sua causa imediata; Deus é a sua causa última... Deus não comete mais pecado do que ele está escrevendo essas palavras”.
Então, aqui está. Eu não espero que esta lista realmente convença alguém da verdade da posição calvinista. Isto não intenta ser uma defesa doutrinária do Calvinismo. Eu dei poucas referências porque queria manter curto e de fácil acesso. As confissões calvinistas padrão (isto é, a Confissão de Fé de Westminster, etc.) devem ser consultadas para afirmações definitivas.
O Dictionary of Theological Terms (Rev. Alan Cairus) é uma ferramenta inestimável. Espero que esclareça mais que alguns poucos mal-entendidos. É desanimador ao extremo ver uma caricatura de sua fé ridicularizada. Talvez alguém do outro lado da batalha (não-calvinistas) possa esforçar-se e esclarecer alguns mal-entendidos que os calvinistas porventura tenham.
1) Calvinismo e Hiper-calvinismo são pólos opostos. Os termos não devem ser usados como sinônimos. Um hiper-calvinista não é apenas um calvinista zeloso. Ambos consideram o outro como calvinistas “mistos”. Ninguém chama a si mesmo de hiper-calvinista.
2) Sim, os calvinistas se dividem em várias facções. Mas existem muitas escolas doutrinárias, e.g. Dispensacionalismo, Governo da Igreja, Adoração... nós cantamos somente Salmos ou usamos hinos? Quais hinos? Nós usamos música? Qual música? Com que conjunto de textos nós baseamos nossa tradução da Bíblia? É o Textus Receptus que é importante ou a (KJV) AV ? Ou ambos? Etc.
3) O termo livre-arbítrio precisa ser definido para evitar confusão. Calvinistas poderão afirmá-lo ou negá-lo, dependendo do que eles acham que você quis dizer... Isto algumas vezes leva a acusações de contradição. Consulte as Confissões Calvinistas padrão, e.g. a Confissão de Fé de Westminster, capítulo 9, para uma definição de termos.
4) O termo livre agência não é automaticamente o mesmo que livre-arbítrio quando usado por um calvinista. Ele é o termo calvinista preferido para livre-arbítrio. Preferido de forma a evitar a confusão tratada no ponto acima.
5) Calvinistas acreditam na responsabilidade do homem, mas negam sua capacidade de arrepender-se e crer no Evangelho. Os dois termos não são sinônimos. Calvinistas crêem que a incapacidade do homem de arrepender-se e crer é causada por seu próprio pecado, e a sua incapacidade não anula a sua responsabilidade.
6) Calvinistas não acreditam que os homens são fantoches, bonecos de madeira ou robôs, mas seres responsáveis e tratados assim por Deus, mesmo quando decaídos.
7) Calvinistas não são fatalistas. Calvinistas acreditam que Deus ordenou o fim e também os meios para este fim. Portanto, eles crêem no evangelismo como o meio que Deus usa para cumprir sua intenção de salvar os eleitos. Não é verdadeiro dizer que os calvinistas acreditam que Deus salva homens sem o Evangelho. Calvinistas acreditam em oração.
8) Calvinistas acreditam que é obrigação dos homens arrependerem-se e crerem no Evangelho. Esta é um de nossas disputas com alguns hiper-calvinistas.
9) Calvinistas acreditam que o Evangelho deve (para citar Calvino) ser pregado indiscriminadamente aos eleitos e réprobos (Comentário de Isaías 54:13), visto que não sabemos quem são eles, mas somente Deus.
10) Calvinistas não limitam o valor ou mérito ou dignidade do sangue de Cristo. Eles limitam a intenção do sangue para salvar qualquer um além dos eleitos. Nós estamos satisfeitos o bastante (como estava João Calvino) com a afirmação de que o sangue de Cristo é suficiente para o mundo inteiro, mas eficiente somente para os eleitos.
11) Calvinistas não pregam apenas os Cinco Ponttos e nada mais. Pelo menos não mais que Dispensacionalistas que pregam apenas sobre profecias ou Pentecostais que só pregam sobre os dons do Espírito, etc.
12) Calvinistas não lêem os Cinco Pontos em todos os textos da Escritura. Muitos dos maiores comentários bíblicos, amados e valorizados por todos os cristãos (e.g, Mattew Henry) foram escritos por calvinistas.
13) Calvinistas acreditam que os homens podem resistir ao Espírito Santo. Eles acreditam que mesmo os eleitos podem resistir ao Espírito Santo, e o fazem... mas somente até o momento em que o Espírito regenera seus corações de forma que não resistam mais a Ele. Os não-eleitos efetivamente resistem a ele por toda a vida.
14) Calvinistas não acreditam que todos os homens são levados se debatendo e gritando irresistivelmente a Cristo. Nós acreditamos na graça irresistível. A vontade não é ignorada na salvação. Nenhum homem vem a Cristo involuntariamente, ou se lamenta por ter sido trazido.
15) Calvinistas não acreditam que existam almas lá fora que querem ser salvas, mas não podem ser salvas porque não são eleitas.
16) Calvinistas, sem ter acesso ao Livro da Vida do Cordeiro, vêem todo homem como potencialmente eleito e pregam o evangelho a ele.
17) Calvinistas acreditam na eleição incondicional mas eles não acreditam na salvação incondicional. A não ser que o homem nasça de novo, ele não entrará no Reino dos céus (João 3:3). A não ser que ele se arrependa, ele perecerá (Lucas 13:3). A não ser que seja convertido, etc... todas estas são condições da salvação.
18) Calvinistas acreditam que a regeneração precede a fé em Cristo. Nós não confundimos o termo regeneração com justificação ou salvação. O Espírito de Deus regenera o pecador eleito capacitando-o a abandonar seu pecado e voluntariamente abraçar a Cristo e então ser justificado pela fé e salvo pela eternidade. Regeneração, portanto, não é sinônimo de justificação ou salvação assim como convicação de pecado não é sinônimo de conversão a Cristo.
19) Perseverança dos santos não significa que os calvinistas crêem que eles podem levar sua querida vida sem qualquer referência a observar o poder de Deus. Isto simplesmente significa que nós cremos que os cristãos provarão ser vencedores, de acordo com 1 João 5:4-5, etc...
20) Alguns calvinistas usam a frase redenção particular em oposição à expiação limitada porque eles podem ver como a posição da redenção geral também limita a expiação, embora de uma forma diferente, isto é, ela não realiza a tudo que se pretende.
21) Calvinistas não acreditam que João Calvino era infalível... não mais que Metodistas acreditam que João Wesley foi infalível ou Dispensacionalistas dão a Schofield ou John Darby a palavra final.
22) Embora os calvinistas creiam que a graça salvadora e o arrependimento são dons de Deus, dados somente a seus eleitos, eles não crêem que Deus exercita a fé por eles ou arrepende-se por eles. O pecador eleito, capacitado pelo poder de Deus, realmente se arrepende e crê por si mesmo.
23) Embora possa não haver um meio-termo real entre a posição calvinista e aquela dos não-calvinistas, ainda assim muitos calvinistas acreditam que os dois lados realmente pregam o Evangelho. Apesar de nossas diferenças em muitos dos detalhes, um homem que prega que Cristo morreu pelos ímpios e que a obra foi suficiente para salvar aquele que se arrepende e crê está realmente pregando o Evangelho. Nós nos regozijamos na pregação do Evangelho de John Wesley tanto quanto na de George Whitefield, apesar de (naturalmente) considerarmos Whitefield um teólogo melhor.
24) Não há nenhuma contradição ou paradoxo entre a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. Em nenhum lugar a Escritura diz que o homem é responsável porque ele é livre, ou seja, a afirmação de que a responsabilidade pressupõe a liberdade é uma falácia. Pelo contrário, a Escritura ensina que o homem é responsável porque Deus, que é soberano, o considerada assim. Além do mais, Paulo, em Romanos 1, afirma que é o conhecimento inato do homem que o torna responsável pelos seus atos, e não a sua suposta liberdade. Isso está de acordo com o que Jesus diz em João 9:41: “Respondeu-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado algum; mas, porque agora dizeis: Nós vemos, subsiste o vosso pecado”.
25) Embora os calvinistas creiam que até mesmo atos pecaminosos são ordenados por Deus (Efésios 1:11/Provérbios 16:4), isso não faz de Deus o autor do pecado. Concordamos com o Dr. Clark, que ao escrever seu livro sobre o problema do mal, disse: “Deus não é o autor deste livro, como os arminianos seriam os primeiros a admitir; mas ele é a causa última dele, como a Bíblia ensina. Todavia, eu sou o autor. Autoridade, portanto, é um tipo de causa, mas há outros tipos. O autor de um livro é a sua causa imediata; Deus é a sua causa última... Deus não comete mais pecado do que ele está escrevendo essas palavras”.
Então, aqui está. Eu não espero que esta lista realmente convença alguém da verdade da posição calvinista. Isto não intenta ser uma defesa doutrinária do Calvinismo. Eu dei poucas referências porque queria manter curto e de fácil acesso. As confissões calvinistas padrão (isto é, a Confissão de Fé de Westminster, etc.) devem ser consultadas para afirmações definitivas.
O Dictionary of Theological Terms (Rev. Alan Cairus) é uma ferramenta inestimável. Espero que esclareça mais que alguns poucos mal-entendidos. É desanimador ao extremo ver uma caricatura de sua fé ridicularizada. Talvez alguém do outro lado da batalha (não-calvinistas) possa esforçar-se e esclarecer alguns mal-entendidos que os calvinistas porventura tenham.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
O “Novo” Calvinismo X O “Velho” Calvinismo - Pr. Juan De Paula
Minha “conversão” ao calvinismo se deu em 2004 ao iniciar o Segundo ano do curso de teologia no seminário por influência de um professor que se tornou um grande amigo pessoal. Já havia tensões em minha mente sobre a soberania de Deus na salvação em 2002, mas com a descoberta do método histórico-crítico e algumas inclinações neo-ortodoxas no 1º ano, pude “resolver” as tensões quanto à predestinação em minha mente abrindo mão da inerrância bíblica. Nas férias, pude perceber que abrir mão da inerrância me traria sérios problemas na mente e no coração e precisava de substância para crer de forma evangélica. Foi aí que estudei a confissão de Fé de Westminster e ponto: tornei-me um calvinista fervoroso e vigoroso na defesa da soberania de Deus e das doutrinas da graça, convicções que amo, professo e defendo até hoje e oro para que permaneça assim até o fim da minha existência.
Porém agi com muita falta de sabedoria e achava que estava certo assim. Por um lado eram tensões que precisava resolver no coração, por outro lado, espelhava a simbiose entre a fé reformada e o tradicionalismo. Daí que ao iniciar as leituras em John Piper e depois descobrindo toda uma tropa (Wayne Grudem, Mark Driscoll, C. J. Mahaney, Tim Keller) que foi denominada “novo calvinismo” recentemente pela revista Times como a 3º idéia mais influente nos EUA (Glória a Deus por isso!) fui despertado para algumas questões.
O “novo” calvinismo x o “velho” calvinismo
O movimento que foi denominado “novo calvinismo” se assemelha ao “velho” calvinismo nas convicções doutrinárias. Crê no conteúdo das confissões de fé reformadas e as enxerga como fiéis intérpretes das Escrituras. Crê nas doutrinas da graça e na soberania de Deus na salvação e afirma isso com veemência. Porém assume algumas posturas diferentes no campo prático e pastoral.
1 – O “novo” calvinismo tem uma postura dialogal com outros cristãos. O “novo” calvinismo observa outras vertentes do cristianismo e absorve o que há de melhor. O “novo”calvinismo busca ter humildade para não se achar melhor do que outros e busca sabedoria para se articular nas controvérsias. Conforme salientou Mark Driscoll: “O velho calvinismo era temeroso e desconfiado dos outros cristãos, queimando pontes. Essa nova corrente faz o contrário” ou seja, para Driscoll, o “novo” calvinismo constrói pontes entre os cristãos. A máxima de Richard Baxter é bastante relevante nesse sentido: “No que é essencial, unidade, no que é não-essencial, liberdade e em todas as coisas, caridade”.
2 – O “novo” calvinismo dialoga com a contemporaneidade. Não olha com desconfiança para a pós-modernidade, mas pega o que há de melhor combatendo o relativismo. Não se assemelha ao mundo no conteúdo, mas procura comunicar melhor ao mundo a mensagem adquirindo uma prática litúrgica bíblica e ao mesmo tempo contextualizada entendendo a liberdade que Jesus Cristo dá a sua Igreja nesse sentido. Boa liturgia, bíblica e contemporânea nos cânticos, com conteúdo e relevância.
3 – O “novo” calvinismo é positivo. Não se arma numa fortaleza de defesa, mas também não se contamina com as tendências atuais somente por estarem na moda. Procura manter os distintivos e afirmá-los. Na prática, não investem tempo nem energia para desconstruir os métodos pragmáticos de crescimento de igrejas, mas procuram buscar nas Escrituras os métodos corretos. Não busca ser polemista, mas afirmar a verdade bíblica em amor. Não quer ser pragmático e crescer a qualquer custo, mas busca crescer com os meios bíblicos sem faltar com a relevância e ficar apenas em contextos minúsculos.
4 – O “novo” calvinismo é fervoroso e carismático. John Piper salienta “por um lado, temos os conservadores, extremamente meticulosos com as idéias acerca de Deus e com a preocupação de ter as doutrinas corretamente estabelecidas, aos quais digo: amém! Estou com vocês. Por outro lado, temos os carismáticos, perdidamente simplórios com relação à doutrina e entregues à emoção – levantam as mãos e batem palmas, seus pés pulam e eles sentem algo diferente, caso contrário o Senhor não está naquele lugar! Também estou com Eles! Odeio a separação entre os dois. Farei todo o possível, dentro das minhas forças e enquanto estiver vivo, para ajudar essas pessoas a enxergarem que elas estão dando a Deus apenas à metade da sua glória. Conhecer a Deus verdadeiramente e não sentí-Lo de forma devida é dar-Lhe apenas metade de Sua glória. Sentí-Lo de forma devida e não conhecê-Lo verdadeiramente é dar-Lhe apenas metade de Sua glória. Devemos dar a Deus toda a Sua glória, assim como Jonathan Edwards destacou.” (PIPER, O alvo do aconselhamento bíblico é a glória de Deus In Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, vol. 6) O “novo” calvinismo, se não em todos os seus adeptos, mas em considerável parte, aceita a atualidade, contemporaneidade e continuidade dos dons extraordinários dados pelo Espírito Santo em detrimento do cessacionismo defendido por boa parte dos eruditos reformados. O “novo” calvinismo posiciona as afeições cristãs, parodiando Jonathan Edwards, em seu devido lugar com bom uso das manifestações físicas.
5 – O “novo” calvinismo busca o prazer cristão e a felicidade em Deus. John Piper chama isso de hedonismo cristão. Ainda que alguns fiquem chocados com o termo, ele significa prazer e o ser humano foi criado para glorificar a Deus e se deleitar Nele, perdeu essa alegria na queda, foi redimido por Cristo para se deleitar Nele novamente em reconciliação e será glorificado para a alegria eterna com Deus. O prazer cristão é a felicidade em Deus vivida hoje em todas as esferas da vida. Como diz John Piper: “Deus é mais glorificado em nós, quando estamos mais plenamente satisfeitos Nele”, sentença que guia a sua vida e pensamento e que está exposta no livro “Teologia da Alegria” ou “Em Busca de Deus”. A teologia do prazer cristão tem guiado esse blog nos últimos meses. Isso choca porque ensina que a obediência como dever é legalismo (parodiando Russell Shedd no prefácio ao livro).
6 – O “novo” calvinismo não é institucional ou denominacional. É a fé cristã vivida com intensidade, paixão e fervor pela glória de Deus seja de que denominação evangélica for e em que instituição influenciar. Não se prende a instituições e denominações, mas busca serví-las e contagiá-las.
Cuidados com o “novo” calvinismo
1 - Os propagadores do “novo” calvinismo têm recebido atenção da mídia e como a nossa tendência no coração é fabricar ídolos então corre-se o risco de se idolatrar essas pessoas e tratá-las como celebridade. O foco e o alvo é sempre Jesus Cristo , encarnação da glória de Deus revelada na face dele entre nós.
2 – O “novo” calvinismo não é um fim em si mesmo e nem deve ser idolatrado e adorado como o sistema filosófico mais plausível (ainda que a cosmovisão cristã faça isso), mas o “novo” calvinismo deve buscar colocar Deus no centro de todas as coisas em sua supremacia e majestade e buscar a felicidade dentro disso.
3 – O “novo” calvinismo não tem nada de novo. É a fé cristã em sua expressão reformada dialogando com vitalidade e relevância no século XXI baseado em Romanos 12:2 influenciando o mundo sem se moldar, sem tomar a forma dele, transformando-o com a mente e o coração em Cristo e em nova vida para a glória de Deus.
4 – Ainda estou muito longe de ser alguém totalmente satisfeito em Deus. Ore muito por mim, prezado (a) leitor (a).
Terminando
Viva para a glória de Deus de forma apaixonada!
Busque ser bíblico em tudo!
Seja alegre e feliz em Deus!
Minha “conversão” ao calvinismo se deu em 2004 ao iniciar o Segundo ano do curso de teologia no seminário por influência de um professor que se tornou um grande amigo pessoal. Já havia tensões em minha mente sobre a soberania de Deus na salvação em 2002, mas com a descoberta do método histórico-crítico e algumas inclinações neo-ortodoxas no 1º ano, pude “resolver” as tensões quanto à predestinação em minha mente abrindo mão da inerrância bíblica. Nas férias, pude perceber que abrir mão da inerrância me traria sérios problemas na mente e no coração e precisava de substância para crer de forma evangélica. Foi aí que estudei a confissão de Fé de Westminster e ponto: tornei-me um calvinista fervoroso e vigoroso na defesa da soberania de Deus e das doutrinas da graça, convicções que amo, professo e defendo até hoje e oro para que permaneça assim até o fim da minha existência.
Porém agi com muita falta de sabedoria e achava que estava certo assim. Por um lado eram tensões que precisava resolver no coração, por outro lado, espelhava a simbiose entre a fé reformada e o tradicionalismo. Daí que ao iniciar as leituras em John Piper e depois descobrindo toda uma tropa (Wayne Grudem, Mark Driscoll, C. J. Mahaney, Tim Keller) que foi denominada “novo calvinismo” recentemente pela revista Times como a 3º idéia mais influente nos EUA (Glória a Deus por isso!) fui despertado para algumas questões.
O “novo” calvinismo x o “velho” calvinismo
O movimento que foi denominado “novo calvinismo” se assemelha ao “velho” calvinismo nas convicções doutrinárias. Crê no conteúdo das confissões de fé reformadas e as enxerga como fiéis intérpretes das Escrituras. Crê nas doutrinas da graça e na soberania de Deus na salvação e afirma isso com veemência. Porém assume algumas posturas diferentes no campo prático e pastoral.
1 – O “novo” calvinismo tem uma postura dialogal com outros cristãos. O “novo” calvinismo observa outras vertentes do cristianismo e absorve o que há de melhor. O “novo”calvinismo busca ter humildade para não se achar melhor do que outros e busca sabedoria para se articular nas controvérsias. Conforme salientou Mark Driscoll: “O velho calvinismo era temeroso e desconfiado dos outros cristãos, queimando pontes. Essa nova corrente faz o contrário” ou seja, para Driscoll, o “novo” calvinismo constrói pontes entre os cristãos. A máxima de Richard Baxter é bastante relevante nesse sentido: “No que é essencial, unidade, no que é não-essencial, liberdade e em todas as coisas, caridade”.
2 – O “novo” calvinismo dialoga com a contemporaneidade. Não olha com desconfiança para a pós-modernidade, mas pega o que há de melhor combatendo o relativismo. Não se assemelha ao mundo no conteúdo, mas procura comunicar melhor ao mundo a mensagem adquirindo uma prática litúrgica bíblica e ao mesmo tempo contextualizada entendendo a liberdade que Jesus Cristo dá a sua Igreja nesse sentido. Boa liturgia, bíblica e contemporânea nos cânticos, com conteúdo e relevância.
3 – O “novo” calvinismo é positivo. Não se arma numa fortaleza de defesa, mas também não se contamina com as tendências atuais somente por estarem na moda. Procura manter os distintivos e afirmá-los. Na prática, não investem tempo nem energia para desconstruir os métodos pragmáticos de crescimento de igrejas, mas procuram buscar nas Escrituras os métodos corretos. Não busca ser polemista, mas afirmar a verdade bíblica em amor. Não quer ser pragmático e crescer a qualquer custo, mas busca crescer com os meios bíblicos sem faltar com a relevância e ficar apenas em contextos minúsculos.
4 – O “novo” calvinismo é fervoroso e carismático. John Piper salienta “por um lado, temos os conservadores, extremamente meticulosos com as idéias acerca de Deus e com a preocupação de ter as doutrinas corretamente estabelecidas, aos quais digo: amém! Estou com vocês. Por outro lado, temos os carismáticos, perdidamente simplórios com relação à doutrina e entregues à emoção – levantam as mãos e batem palmas, seus pés pulam e eles sentem algo diferente, caso contrário o Senhor não está naquele lugar! Também estou com Eles! Odeio a separação entre os dois. Farei todo o possível, dentro das minhas forças e enquanto estiver vivo, para ajudar essas pessoas a enxergarem que elas estão dando a Deus apenas à metade da sua glória. Conhecer a Deus verdadeiramente e não sentí-Lo de forma devida é dar-Lhe apenas metade de Sua glória. Sentí-Lo de forma devida e não conhecê-Lo verdadeiramente é dar-Lhe apenas metade de Sua glória. Devemos dar a Deus toda a Sua glória, assim como Jonathan Edwards destacou.” (PIPER, O alvo do aconselhamento bíblico é a glória de Deus In Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, vol. 6) O “novo” calvinismo, se não em todos os seus adeptos, mas em considerável parte, aceita a atualidade, contemporaneidade e continuidade dos dons extraordinários dados pelo Espírito Santo em detrimento do cessacionismo defendido por boa parte dos eruditos reformados. O “novo” calvinismo posiciona as afeições cristãs, parodiando Jonathan Edwards, em seu devido lugar com bom uso das manifestações físicas.
5 – O “novo” calvinismo busca o prazer cristão e a felicidade em Deus. John Piper chama isso de hedonismo cristão. Ainda que alguns fiquem chocados com o termo, ele significa prazer e o ser humano foi criado para glorificar a Deus e se deleitar Nele, perdeu essa alegria na queda, foi redimido por Cristo para se deleitar Nele novamente em reconciliação e será glorificado para a alegria eterna com Deus. O prazer cristão é a felicidade em Deus vivida hoje em todas as esferas da vida. Como diz John Piper: “Deus é mais glorificado em nós, quando estamos mais plenamente satisfeitos Nele”, sentença que guia a sua vida e pensamento e que está exposta no livro “Teologia da Alegria” ou “Em Busca de Deus”. A teologia do prazer cristão tem guiado esse blog nos últimos meses. Isso choca porque ensina que a obediência como dever é legalismo (parodiando Russell Shedd no prefácio ao livro).
6 – O “novo” calvinismo não é institucional ou denominacional. É a fé cristã vivida com intensidade, paixão e fervor pela glória de Deus seja de que denominação evangélica for e em que instituição influenciar. Não se prende a instituições e denominações, mas busca serví-las e contagiá-las.
Cuidados com o “novo” calvinismo
1 - Os propagadores do “novo” calvinismo têm recebido atenção da mídia e como a nossa tendência no coração é fabricar ídolos então corre-se o risco de se idolatrar essas pessoas e tratá-las como celebridade. O foco e o alvo é sempre Jesus Cristo , encarnação da glória de Deus revelada na face dele entre nós.
2 – O “novo” calvinismo não é um fim em si mesmo e nem deve ser idolatrado e adorado como o sistema filosófico mais plausível (ainda que a cosmovisão cristã faça isso), mas o “novo” calvinismo deve buscar colocar Deus no centro de todas as coisas em sua supremacia e majestade e buscar a felicidade dentro disso.
3 – O “novo” calvinismo não tem nada de novo. É a fé cristã em sua expressão reformada dialogando com vitalidade e relevância no século XXI baseado em Romanos 12:2 influenciando o mundo sem se moldar, sem tomar a forma dele, transformando-o com a mente e o coração em Cristo e em nova vida para a glória de Deus.
4 – Ainda estou muito longe de ser alguém totalmente satisfeito em Deus. Ore muito por mim, prezado (a) leitor (a).
Terminando
Viva para a glória de Deus de forma apaixonada!
Busque ser bíblico em tudo!
Seja alegre e feliz em Deus!
domingo, 13 de setembro de 2009
"Pecadores nas mãos de um Deus irado" - por Jonathan Edwards
Sermão pregado em 08 de Julho de 1741 em Enfield, Connecticut - EUA
“... A seu tempo, quando resvalar o seu pé” (Deuteronômio 32.35).
Nesse versículo os ímpios e incrédulos israelitas, que eram o povo visível de Deus, e que viviam debaixo de Sua graça, são ameaçados com a vingança do Senhor. Apesar de todas as obras maravilhosas que Deus operara em favor desse povo, este permanecia sem juízo e destituído de entendimento, como está escrito no versículo 28. e mesmo sob todos os cuidados do céu produziram fruto amargo e venenoso, conforme verificamos nos dois versículos anteriores.
A declaração que escolhi para meu texto, "A seu tempo, quando resvalar o seu pé", parece subentender as seguintes questões, relativas à punição e destruição que aqueles ímpios israelitas estavam sujeitos a sofrer:
1. Que eles estavam sempre expostos à destruição , assim como está sujeito a cair todo aquele que se coloca de pé, ou anda por lugares escorregadios. A maneira como serão destruídos vem aí representada pelo deslize de seus pés. A mesma citação encontramos no Sl 73.18-19, "Tu certamente os pões em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição".
2. Faz supor também que estavam sempre sujeitos a uma súbita e inesperada destruição, à semelhança daquele que anda por lugares escorregadios e a qualquer instante pode cair. O ímpio não consegue prever se, num momento, ficará de pé, ou se, em seguida, cairá. Quando cai, cai subitamente, sem aviso, como está escrito, também, no Sl 73.18-19, "Tu certamente os põe em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados! Totalmente aniquilados de terror!"
3. Outra coisa implícita no texto é que os ímpios estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pelas mãos de outrem, pois aquele que se detém ou anda por terrenos escorregadios não precisa mais do que seu próprio peso para cair por terra.
4. E também a razão pela qual ainda não caíram, e não caem, é por não haver chegado ainda o tempo determinado pelo Senhor. Pois está escrito que quando este tempo determinado, ou escolhido, chegar, seu pé irá resvalar. E então serão entregues à queda, para a qual já estão predispostos por causa do próprio peso. Deus não os susterá mais em lugares escorregadios, mas vai deixá-los sucumbir. Então, nesse exato momento, cairão em destruição, à semelhança daqueles que transitam em terrenos escorregadios, à beira de precipícios, e não conseguem se manter de pé sozinhos,caindo imediatamente e se perdendo ao serem abandonados.
Eu insistira agora num exame maior das seguintes palavras: não há nada, a não ser a boa vontade de Deus, que impeça os ímpios de caírem no inferno a qualquer momento.
Por mera boa vontade de Deus, me refiro à sua vontade soberana, ao seu livre arbítrio, o qual não é restringido por nenhuma obrigação, nem tolhido por qualquer tipo de dificuldade. Em última análise, sob qualquer aspecto, nada, exceto a vontade de Deus, tem poder para preservar os ímpios da destruição por um instante sequer.
A verdade dessa observação transparecerá nas seguintes considerações:
1. Não falta poder a Deus para lançar os ímpios no inferno a qualquer momento. A mão dos homens não é suficientemente forte quando Deus se levanta. O mais forte deles não tem poder para resistir-lhe, e ninguém consegue se livrar de suas mãos.Ele não só pode lançar os ímpios no inferno, como pode fazê-lo com a maior facilidade. Muitas vezes, uma autoridade terrena encontra grande dificuldade em dominar um rebelde, o qual acha meios de se fortalecer e se tornar mais poderoso pelo número de seguidores que alicia. Mas com Deus não é assim. Não há força que resista ao seu poder. Mesmo que as mãos se unam, e que enormes multidões de inimigos do Senhor juntem suas forças e se associem, serão todos facilmente despedaçados. São como montes de palha seca e leve diante de um furacão, ou como grande quantidade de restolho perto de chamas devoradoras. Nós achamos fácil pisar e esmagar uma lagarta que se arrasta pelo chão. Achamos fácil também cortar ou chamuscar um fio de linha fino que segura alguma coisa. Então, é simples para Deus, quando lhe apraz, lançar seus inimigos no inferno profundo. Quem somos nós, que imaginamos poder resistir Àquele ante cuja repreensão a terra treme, e perante quem as pedras tombam?
2. Eles merecem ser lançados no inferno. Assim, a justiça divina não se interpõe no caminho dos ímpios; nem faz objeção pelo fato de Deus usar seu poder para destruí-los a qualquer momento. Muito pelo contrário, a justiça fala assim da árvore que produz frutos maus: "... pode cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra?" (Lc 13.7). A espada da justiça divina está o tempo todo erguida sobre suas cabeças, e somente a mão de absoluta misericórdia e a mera vontade de Deus podem detê-la.
3. Os ímpios já estão debaixo da sentença de condenação ao inferno. Eles não só merecem ser lançados ali, mas a sentença da lei de Deus, esse preceito de eterna e imutável retidão que o Senhor estabeleceu entre si mesmo e a humanidade, também se coloca contra eles, e assim os mantém. Portanto, tais homens já estão destinados ao inferno. "...o que não crê já está julgado." (Jo 3.18). Assim, todo impenitente pertence, verdadeiramente, ao inferno. Ali é o seu lugar, ele é de lá, como temos em João 8.23: "vós sois cá debaixo" e para lá é destinado. Este é o lugar que a justiçam, a Palavra de Deus e a sentença de sua lei imutável reservam para ele.
4. Assim sendo, eles são objetos da ira e da indignação de Deus, que se manifesta através dos tormentos do inferno. E a razão de não descerem ao inferno agora mesmo não é pelo fato do Senhor, em cujo poder se encontram, estar menos irado com eles no momento, ou, pelo menos, não tão encolerizado como está com aquelas miseráveis criaturas a quem ele atormenta no inferno, as quais experimentam e sofrem ali a fúria de sua indignação. Sim, Deus se acha muito mais furioso com um grande número de pessoas que está vivendo na terra agora, talvez de modo mais tranqüilo e confortável, do que com muitos daqueles que estão experimentando as chamas do inferno. Portanto, a razão porque Deus ainda não abriu a sua mão e os liquidou, não é por ele não se importar com suas iniqüidades, ou não se ofender. O Senhor não se parece com eles, embora pensem que sim. A fúria de Deus arde contra eles, sua condenação não demora. O abismo está preparado, o fogo está pronto, a fornalha incandescente está ardendo, pronta para recebê-los. As chamas vermelhas queimam. A espada luminosa foi afiada e pesa sobre suas cabeças. O inferno abriu a sua boca debaixo deles.
5. O diabo está pronto a cair sobre os ímpios, para apoderar-se deles como coisa sua, no momento em que Deus o permitir. Eles lhe pertencem, suas almas encontram-se em seu poder e sob seu domínio. As Escrituras os apresentam como propriedade de satanás (Lc 11.21). Os demônios os espreitam, estão sempre ao seu lado, à sua direita, esperando por eles como leões esfaimados e enfurecidos que vêem a presa, aguardando a hora de agarrá-la, mas são restringidos por enquanto. Se Deus retirasse sua mão, a qual os refreia, eles cairiam sobre suas pobres almas num instante. A velha serpente está pronta a dar o bote. O inferno escancara sua boca para recebê-los. E se Deus permitisse, seriam rapidamente engolidos e consumidos.
6. Nas almas dos pecadores reinam aqueles princípios diabólicos que os faria arder agora mesmo no inferno, se não fosse a restrição imposta por Deus. Existe na própria natureza carnal do homem uma potencialidade alicerçando os tormentos do inferno. Há aqueles princípios corruptos que agem de maneira poderosa sobre eles, que só dominam completamente, e que são sementes do fogo do inferno. Esses princípios são ativos e poderosos, de natureza extremamente violenta, e se não fosse a mão restringidora do Senhor sobre eles, seriam logo destruídos. Iriam arder em chamas da mesma forma que a corrupção e a rebeldia fazem arder os corações das pessoas condenadas, gerando nelas os mesmos tormentos. As almas dos ímpios são comparadas nas Escrituras com o mar agitado (Is 57.20). Por enquanto Deus controla as iniqüidades deles pelo seu imenso poder, como faz com as ondas enfurecidas do mar, dizendo: "virão até aqui, mas não prosseguirão." Mas se Deus retirasse deles seu poder refreador, seriam todos tragados por elas. O pecado é a ruína e a miséria da alma. Ele é destrutivo pela própria natureza. E se Deus o deixasse sem controle, não seria preciso mais nada para tornar as almas humanas absolutamente miseráveis. A corrupção no coração do homem é algo cheio de fúria incontrolável e sem freio. Enquanto os pecadores viverem aqui, essa fúria será como fogo reprimido pelas restrições divinas. Ao passo que, se fosse liberada, incendiaria o curso natural da vida. E como o coração é um poço de pecado, este mesmo pecado iria imediatamente transformar a alma num forno incandescente ou numa fornalha de fogo e enxofre, caso não fosse restringido.
7. O fato de não haver sinais visíveis da morte por perto, não quer dizer que haja, por um momento, sequer segurança para os ímpios. O fato do homem natural ter boa saúde, de não prever que poderia deixar este mundo num minuto por um acidente, de não haver perigo visível à sua volta, nada disso lhe ser vê de segurança. Contínuas e inúmeras experiências humanas, em todas as épocas, nos mostram que não existem provas de que o homem não esteja à beira da eternidade, ou de que seu próximo passo não venha a ser no outro mundo. Os caminhos e meios, invisíveis e imprevistos, de chegar lá são incontáveis e inconcebíveis. Os homens não convertidos caminham por cima das profundezas do inferno, sobre uma superfície frágil onde existem varias áreas quebradiças, também invisíveis, as quais não conseguirão agüentar o seu peso. As flechas da morte voam ao meio-dia sem serem vistas. O olhar mais atento não pode distingui-las. Deus tem muitas maneiras diferentes e misteriosas de tirar os homens pecadores do mundo e despachá-los para o inferno. Não há nada que faça crer que o Senhor precise de ajuda de um milagre, ou que necessite se desviar do curso natural de sua providência para destruir qualquer pecador, a qualquer momento. Desde que todos os meios para fazer os ímpios deixarem este mundo estão de tal forma nas mãos de Deus, tão absoluta e universalmente sujeitos ao seu poder e determinação, segue-se que a ida dos pecadores para o inferno, a qualquer momento, depende simplesmente da vontade de Deus – quer usando meios ou não.
8. O cuidado e a prudência dos homens naturais em preservar suas vidas, ou o cuidado de terceiros em preservá-las, não lhes dá segurança por um momento sequer. A providência divina e a experiência humana testificam isso. Existem evidências claras de que a sabedoria dos homens não lhes é segurança contra a morte. Se não fosse assim, haveria uma diferença entre a morte prematura e inesperada de homens sábios e prudentes, e dos demais. Mas, o que realmente acontece? "Como morre o homem sábio? Assim como um tolo." (Ec 2.16).
9. Todo o esforço e artimanha dos ímpios para escaparem do inferno não os livram do mesmo, nem por um momento, pois continuam a rejeitar a Cristo, e portanto permanecem ímpios. Quase todos os homens naturais que ouvem falar do inferno alimentam a ilusão de que vão escapar dele. Quanto a sua própria segurança, confiam em si mesmos. Vangloriam-se do que fizeram, do que estão fazendo e do que pretendem fazer. Cada um traça seu próprio plano, pensa em evitar a condenação, e se vangloria e que irá tramar tão bem todas as coisas que seu esquema, com certeza, não falhará. Na verdade, eles ouvem dizer que poucos se salvam, e que a maior parte dos homens que já morreram foram para o inverno; mas cada um deles se imagina capaz de planejar melhor a própria fuga, do que os outros puderam fazer. Dentro de si mesmos dizem que não pretendem ir para esse lugar de tormento, e que pretendem tomar todo o cuidado necessário, esquematizando as coisas de tal forma na ao terem possibilidade de falhar.
Mas os insensatos filhos dos homens iludem-se miseravelmente quanto a seus próprios planos. A confiança que depositam na própria força e sabedoria é o mesmo que confiar na fragilidade de uma sombra. A maior parte daqueles que antes viveram debaixo da dispensação da graça, e agora estão mortos, sem dúvida alguma foram para o inferno. E não é por terem sido menos espertos do que os que ainda estão vivos, nem por terem planejado as coisas de tal forma que não lhes assegurou o escape. Se pudéssemos falar com eles, um a um, e perguntar-lhes se, quando vivos, esperavam ser vítimas de tamanha miséria, sem dúvida ouviríamos todos dizer: "Não, eu nunca pensei em vir para cá. Eu tinha esquematizado as coisas de maneira bem diferente. Pensei que iria conseguir algo melhor para mim, que meu plano era adequado. Pensei em me precaver melhor, mas tudo aconteceu de maneira tão repentina. Não esperava por isso naquela época, e nem daquela maneira. Mas tudo veio como um ladrão. A morte foi mais esperta que eu. A ira de Deus foi rápida demais para mim. Oh!, maldita insensatez! Eu me gabava, e me deleitava em sonhos vãos quanto ao que faria no futuro. E justamente quando eu mais falava de paz e segurança, me sobreveio uma súbita destruição."
10. Deus não se sujeita a nenhuma obrigação, nem a nenhuma promessa de manter o homem natural fora do inferno por um momento sequer. Ele não fez absolutamente nenhuma promessa de vida eterna, ou de libertação ou proteção da morte eterna, senão àquelas que estão contidas na aliança da graça – as promessas concedidas em Cristo, no qual todas as promessas são o sim e o amém. Mas obviamente os que não são filhos da aliança da graça não têm interesse na mesma, pois não crêem em nenhuma das suas promessas, e nem têm o menor interesse no Mediador dessa aliança.
Portanto, apesar de tudo que os homens possam imaginar ou pretender sobre promessas de salvação, devido suas lutas pessoais e buscas incessantes, deixamos claro e manifesto que qualquer desses esforços ou orações que se façam em relação à religião, será inútil. A não ser que creiam em Cristo, o Senhor, de modo nenhum Deus está obrigado a conservá-los fora da condenação eterna.
Então, os homens impenitentes estão detidos nas mãos de Deus por cima do abismo do inferno. Eles merecem o lago de fogo e para ele estão destinados. Deus se acha terrivelmente irritado. Seu furor para com eles é tão grande quanto para com aqueles que já estão agora sofrendo o suplício da fúria de sua ira no inferno. Esses ímpios não fizeram absolutamente nada para abrandar ou diminuir sua cólera, portanto o Senhor não está de modo algum preso a qualquer promessa de livramento, nem por um momento sequer. O diabo espera por eles, o inferno já escancarou a sua boca para tragá-los. O fogo latente em seus corações agrava-se agora querendo explodir. E como continuam sem o menor interesse no Mediador, não existem meios, ao alcance deles, que lhes possa dar segurança. Em suma, eles não têm refúgio e nada onde se segurar. O que os retém a cada instante é a absoluta boa vontade divina e a clemência sem compromisso, sem obrigação, de um Deus enraivecido.
Aplicação
Essa mensagem pode despertar as pessoas não convertidas para o significado do perigo que estão correndo. Isso que vocês escutaram é o caso de todo aquele que não está em Cristo. Esse mundo de tormento, isto é, o lago de enxofre incandescente, está aberto debaixo de vossos pés. Ali se encontra o terrível abismo de chamas que ardem com a fúria de Deus, e o inferno com sua imensa boca escancarada. E vocês não têm onde se apoiarem, nem coisa alguma onde se segurarem. Não existe nada entre vocês e o inferno, senão o ar, e só o poder e o favor de Deus podem vos suster.
Provavelmente vocês não têm consciência dessas coisas, acham que vão conseguir se livrar do inferno, e não vêem nisso tudo a mão de Deus. E olham as coisas ao seu redor, como o bom estado de vossa saúde física, os cuidados que tomam de vossas vidas, e os meios que usam para vossa própria preservação. Mas essas coisas não representam nada. Se Deus retirasse sua mal, elas de nada valeriam para impedir-vos a queda; elas valem tanto como a brisa tênue que tenta sustentar uma pessoa no ar.
Vossas iniqüidades vos fazem pesados como chumbo, pendentes para baixo, pressionados em direção ao inferno pelo próprio peso, e se Deus permitisse que caíssem vocês afundariam imediatamente, desceriam com a maior rapidez, e mergulhariam nesse abismo sem fundo. Vossa saúde, vossos cuidados e prudência, vossos melhores planos, toda a vossa retidão, de nada valeriam para sustentar-vos e conservar-vos fora do inferno. Seria como tentar segurar uma avalancha de pedras com uma teia de aranha. Se não fosse a misericórdia de Deus, a terra não suportaria vocês por um só momento, pois são uma carga para ela. A natureza geme por causa de vocês. A criação foi obrigada a se sujeitar à escravidão, involuntariamente, por causa da vossa corrupção. Não é com prazer que o sol brilha sobre vocês, para que sua luz vos alumie para pecarem e servirem a satanás. A terra não produz de bom grado os seus frutos para satisfazer vossa luxuria. Nem está disposta a servir de palco à exibição de vossas iniqüidades. Não é voluntariamente que o ar alimenta vossos corpos, mantendo viva a chama dos vossos corpos, enquanto vocês gastam a vida servindo os inimigos de Deus. As coisas criadas por Deus são boas e foram feitas para o homem, por meio delas, servisse ao Senhor. Não é com prazer que prestam serviço a outros propósitos, e gemem quando são ultrajadas ao servirem objetivos tão contrários à sua finalidade e natureza. E a própria terra vomitaria vocês se não fosse a mão soberana d'Aquele a quem vocês tanto tem ofendido. Eis aí as nuvens negras da ira de Deus pairando agora sobre vossas cabeças carregadas por uma tempestade ameaçadora, cheia de trovões. Não fosse a mão restringidora do Senhor, elas arrebentariam imediatamente sobre vocês. A misericórdia soberana de Deus, por enquanto, refreia esse vento impetuoso, do contrário ele sobreviria com fúria, vossa destruição ocorreria repentinamente, e vocês seriam como palha dispersada pelo vento.
A ira de Deus é como grandes águas represadas que crescem mais e mais, aumentam de volume, até que encontram uma saída. Quanto mais tempo a correnteza for reprimida, mais rápido e forte será o seu fluxo ao ser liberada. É verdade que até agora ainda não houve um julgamento por vossas obras más. A enchente da vingança de Deus encontra-se represada. Mas, por outro lado, vossa culpa cresce dava dez mais, e dia a dia vocês acumulam mais e mais ira contra si mesmos. As águas estão subindo continuamente, fazendo sua força aumentar mais e mais. Nada, a não ser a misericórdia de Deus, detém as águas, as quais não querem continuar represadas e forçam uma saída. Se Deus retirasse sua mão das comportas, elas se abririam imediatamente e o mar impetuoso da fúria e da ira de Deus iria se precipitar com furor inconcebível, e cairia sobre vocês com poder onipotente. E mesmo que vossa força fosse dez mil vezes maior do que é, sim, dez mil vezes maior do que a força do mais forte e vigoroso diabo do inferno, não valeria nada para resistir ou deter a ira divina.
O arco da ira de Deus já está preparado, e a flecha ajustada ao seu cordel. A justiça aponta a flecha para vosso coração, e estica o arco. E nada, senão a misericórdia de Deus – um Deus irado! – que não se compromete e a nada se obriga, impede que a flecha se embeba agora mesmo do vosso sangue. Assim estão todos vocês que nunca experimentaram uma transformação real em vossos corações pela ação poderosa do Espírito do Senhor em vossas almas – todos vocês que não nasceram de novo, nem foram feitos novas criaturas, ressurgindo da morte do pecado para um estado de luz, e para uma vida nova nunca experimentada antes. Por mais que vocês tenham modificado a conduta em muitas coisas, e tenham possuído simpatias religiosas, e até mantido uma forma pessoal de religião com vossas famílias e em particular, indo à casa do Senhor, sendo até severos quanto a isso, mesmo assim vocês estão nas mãos de um Deus irado. Somente sua misericórdia vos livra de ser, agora, neste momento, tragados pela destruição eterna. Por menos convencidos que vocês estejam agora quanto às verdades ouvidas, no porvir serão plenamente convencidos. Aqueles eu já se foram, e que estavam na mesma situação que a vossa, percebem que foi exatamente isso que lhes aconteceu, pois a destruição caiu de repente sobre muitos deles, quando menos esperavam, e quando mais afirmavam vier em paz e segurança. Agora eles vêem que aquelas coisas nas quais puseram sua confiança para obter paz e segurança eram nada mais que uma brisa ligeira e sombras vazias.
O Deus que vos mantém acima do abismo do inferno vos abomina; ele está terrivelmente irritado e seu furor contra vocês queima como fogo. Ele vê vocês como apenas dignos de serem lançados no fogo. E seus olhos são tão puros que não podem tolerar tal visão. Vocês são dez mil vezes mais abomináveis a seus olhos do que é a mais odiosa das serpentes venenosas para olhos humanos. Vocês o têm ofendido infinitamente mais do que qualquer rebelde obstinado ofenderia a um governante. No entanto, nada, a não ser a sua mão, pode impedir-vos de cair no fogo a qualquer momento. O fato de vocês não terem ido para o inferno a noite passada e de terem tido permissão para acordar ainda aqui neste mundo, depois de terem fechado os olhos ontem para dormir, atribui-se ao mesmo favor. Não existe outra razão porque vocês não foram lançados no inferno ao se levantarem pela manhã, a não ser o fato da mão de Deus ter-vos sustentado. E não existe outra razão porque vocês não caiam no inferno neste exato momento.
Oh!, pecador, pense no perigo terrível que se encontra! É sobre uma grande fornalha de furor, sobre um abismo imenso e sem fim, cheio do fogo da ira, que você está pendurado, seguro pela mão de Deus, cujo furor acha-se tão inflamado contra você, como contra muitas pessoas já condenadas no inferno. Você está suspenso por uma linha tênue, com as chamas da cólera divina lampejando à tua volta, prontas para atearem fogo e queimar-te por inteiro. E você continua sem interesse no Mediador, sem nada onde se agarrar para poder se salvar, nada que possa afastar as chamas da cólera divina, nada de teu próprio, nada que tenha feito ou possa vir a fazer, para persuadir o Senhor a poupar tua vida por um minuto sequer. Considere, então, mais detidamente, vários aspectos dessa cólera que te ameaça com tão grande perigo.
1. A quem pertence essa ira? É a ira do Deus infinito. Se fosse somente a ira humana, mesmo a do governante mais poderoso, comparativamente seria considerada como coisa pequena. A ira dos reis é bastante temida, principalmente dos monarcas absolutos, que possuem os bens e as vidas de seus súditos inteiramente sob o seu poder, para serem usados quando bem entenderem. "Como o bramido do leão é o terror do rei; o que lhe provoca a ira peca contra a sua própria vida." (Pv 20.2). O súdito que enfurece este tipo de governante arbitrário, sofre os maiores tormentos que se possa conceber, ou que o poder humano possa infligir. Porém, os maiores principados da terra, em toda a sua grandeza, majestade e poder, mesmo revestidos de seus grandes terrores, não são mais do que vermes débeis e desprezíveis que rastejam no pó, quando comparados com o grande e todo-poderoso criador e rei dos céus e da terra. Mesmo quando estão enraivecidos e sua fúria chega ao máximo, é muito pouco o que podem fazer. Os reis da terra são, perante Deus, como gafanhotos. Valem menos que nada. Tanto o seu amor quanto o seu ódio são desprezíveis. A ira do grande Rei dos reis é muito mais terrível do que a deles, tal como é maior a sua majestade. "Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer". (Lc 12.4-5).
2. É à ferocidade de sua ira que vocês estão expostos. Lemos, com freqüência, sobre a ira de Deus, como por exemplo em Is 58.18. "Segundo as obras deles, assim retribuirá; furor aos seus adversários." E também em Is 66.15 "Porque, eis que o Senhor virá em fogo, e os seus carros como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor, e a sua repreensão em chamas de fogo." E assim é em muitos outros lugares da Bíblia. Lemos também em ap 19.15: "... o lagar do vinho do furor da ira do Deus todo-poderoso." Essas palavras são incrivelmente aterradoras. Se estivesse escrito apenas a "ira de Deus", isso já nos faria supor algo bastante temível. Mas está escrito "o furor da ira de Deus", ou seja, a fúria de Deus, o furor de Jeová! Oh!, quão terrível deve ser esse furor! Quem pode exprimir ou conceber o que essas palavras contêm? Mas não é apenas isso que está escrito, e sim "o furor da ira do Deus Todo-Poderoso." Essas palavras dão a entender que uma grande manifestação de seu poder onipotente vai acontecer. Através dela ele infligirá aos homens todo o furor de sua ira. Assim como os homens costumam manifestar sua própria força através do furor de sua ira, a onipotência divina irá, da mesma forma, se enfurecer e se manifestar. Então, qual será a conseqüência de tudo isso? O que será do pobre verme que vier a sofrer todo este mal? Que mão serão tão fortes, e que coração conseguirá suportar tanto furor? A que terrível, inexprimível, inconcebível abismo de miséria irá chegar a pobre criatura humana que será vítima disso tudo!
Pensem bem, vocês que estão aqui agora, e que permanecem em estado pecaminoso. O fato de Deus vir a efetivar o furor da sua ira, torna implícito que ele infligirá esse castigo sem compaixão. Quando Deus olhar a indescritível aflição do vosso estado, e vir como vossos tormentos são absolutamente desproporcionais à vossa força, e como vossas pobres almas estão esmagadas, imersas em trevas eternas, não terá compaixão de vocês, não ira deter a execução de sua ira, ou, de forma alguma, tornar mais leve sua mão. Nessa hora Deus não usará de misericórdia para com vocês, nem conterá seu vento impetuoso. Ele não terá consideração para com o vosso bem estar, e nem irá evitar que vocês sofram. Na verdade, fará com que sofram na medida exata que sua rigorosa justiça vier a requerer. Nada será modificado só pelo fato de ser difícil para vocês suportarem. "Pelo que também eu os tratarei com furor; os meus olhos não pouparão, nem terei piedade. Ainda que me gritem aos ouvidos em alta voz, nem assim os ouvirei." (Ez 8.18). Deus está pronto, agora, a usar de compaixão com vocês. Hoje é o dia da misericórdia. Vocês podem clamar neste instante, e ter esperanças de alcançar sua graça. Mas quando o dia da misericórdia passar, vosso lamento, o pranto mais doloroso, os gritos, serão em vão. No que diz respeito ao vosso bem estar, vocês estarão completamente perdidos e alienados de Deus. O Senhor não terá outra opção senão a de entregar-vos ao sofrimento e à miséria. E vocês continuarão não tendo outra perspectiva, pois serão vasos de ira, preparados para a destruição. Não haverá outro uso qualquer para tais vasos, senão o de enchê-los da ira de Deus. Quando clamarem ao Senhor, ele estará tão longe de consolar-vos que, inclusive, está escrito a este respeito que Deus irá, simplesmente, 'rir e zombar' de vocês (Pv 1.25-26).
Vejam quão terríveis são estas palavras do grande Senhor: "O lagar eu o pisei sozinho, e dos povos nenhum homem se achava comigo; pisei as uvas na minha ira; no meu furor as esmaguei, e o seu sangue me salpicou as vestes e me manchou o traje todo." (Is 63.3). É quase impossível se conceber palavras que tragam em si uma manifestação maior destas três coisas: desprezo, ódio e fúria de indignação. Se clamarem a Deus por consolo, ele estará longe de querer vir consolar-vos, ou de querer demonstrar-vos interesse ou favor. Ao contrario, o Senhor simplesmente irá esmagar-vos sob seus pés. E apesar de saber que, ao pisotear-vos, vocês não poderão suportar o peso de sua onipotência, ainda assim ele não vai se importar, e irá esmagar-vos debaixo de seus pés, sem piedade, espremendo o vosso sangue e fazendo com que o mesmo espirre longe, manchando suas vestes, maculando seu traje. Ele não só irá odiar-vos, como devotará a vós o maior desprezo. Lugar algum será considerado próprio para vocês, a não ser debaixo de seus pés, para serem pisados como a lama das ruas.
3. A miséria a que vocês estão sujeitos é aquela que Deus vos infligirá, a fim de demonstrar a força da ira do Senhor, Deus tem em seu coração a intenção de mostrar aos anjos e aos homens, não só a excelência do seu amor, como a severidade de seu furor. Às vezes os governantes da terra resolvem mostrar a força de sua ira através de castigos extremos que mandam infligir sobre aqueles que os enfurecem. Nabucodonosor, o poderoso e arrogante rei do império dos caldeus, demonstrou seu furor quando, ao se irritar com Sadraque, Mesaque e Abdenego, ordenou que se acendesse a fornalha de fogo ardente sete vezes mais do que o normal. Como era de se esperar, a fornalha foi aquecida intensamente, até atingir o mais alto grau que poderia produzir. O grande Deus também quer revelar a sua ira, e exaltar sua tremenda majestade e grandioso poder através dos sofrimentos desmedidos de seus amigos. "Que diremos, pois, se Deus querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos da ira, preparados para a perdição." (Romanos 9.22). E visto que esse é o seu desígnio e o que ele determinou, ou seja, mostrar quão terrível e ilimitada é a ira, a fúria e a indignação do Senhor, ele o mostrará realmente. Será realizado algo horrendo, muito terrível. Quando o grande e furioso Deus tiver se levantado e executado sua terrível vingança sobre o mísero pecador, e o desgraçado estiver sofrendo o peso e o poder infinito de sua indignação, então Deus chamará o universo inteiro para contemplar a imensa majestade e o tremendo poder que nele existe. "Os povos serão queimados como se queima a cal, como espinhos cortados arderão no fogo." "Ouvi vós os que estais longe, o que tenho feito; e vós, que estais perto, reconhecei o meu poder. Os pecadores em Sião se assombram, o tremor se apodera dos ímpios; e eles perguntam: quem dentre nós habitará com o fogo devorador? Quem dentre nós habitará com chamas eternas?" (Isaías 33.12-14).
Assim será com vocês que não são convertidos, se permanecerem neste estado. O poder infinito, a majestade e a grandiosidade do Deus onipotente serão exaltados em vocês através da inexprimível força dos tormentos que vos sobrevirão. Vocês serão atormentados na presença dos santos anjos e na presença do Cordeiro. E quando estiverem nesse estado de sofrimento, os gloriosos habitantes do céu sairão para contemplar esse espetáculo horrendo, e verão como é a fúria do Todo-poderoso. E quando virem todas essas coisas, se prostrarão e adorarão seu grande poder e majestade. "E será que de uma lua nova à outra, e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor. Eles sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne." (Isaías 66.23-24).
4. É uma ira eterna. Já seria algo terrível sobre o furor e a cólera do Deus Todo-poderoso por um momento. Mas vocês terão de sofrê-la por toda a eternidade. Essa intensa e horrenda miséria não terá fim. Ao olhar para o futuro, vocês verão à frente uma interminável eternidade, de duração infinita, que irá devorar vossos pensamentos e assombrar vossas almas. E vocês irão se desesperar, com certeza, por não conseguirem nenhum livramento, termo, alívio ou descanso para tanta dor. Saberão também, que terão de sofrer até à última gota por longos séculos, por milhões e milhões de anos, lutando e pelejando contra essa vingança inclemente e todo-poderosa. Então, depois de passar por tudo isso, quando tantos séculos vos tiverem consumido, saberão que tudo não passa apenas de uma gota d'água quando comparado ao que ainda resta. Portanto, vosso castigo será, com certeza, infinito. Oh!, quem poderia exprimir o estado de uma alma em tais circunstâncias? Tudo o que pudermos dizer sobre o assunto, vai nos dar, apenas, uma débil e frágil visão da realidade. Ela é inexprimível, inconcebível, pois "Quem conhece o poder da ira de Deus?"
Que horrendo é o estado daqueles que diariamente, a cada hora, se encontram em perigo de sofrer tamanha ira e infinita miséria! Mas esse é o caso sinistro de toda alma que ainda não nasceu de novo, por mais moral, austera, sóbria e religiosa que seja. Queira Deus vocês pensassem em todas essas coisas, sejam jovens ou velhos. Há razões de sobra para acreditar que muitos daqueles que ouviram o evangelho certamente estarão expostos a esse tormento por toda a eternidade. Não sabemos quem são eles, nem o que pensam. Pode ser que estejam tranqüilos agora, escutando esta mensagem sem se perturbarem muito, e que estejam até se gabando de que, no caso deles, conseguirão escapar. Se soubéssemos que dentre os nossos conhecidos existe uma pessoa, uma só, sujeita a sofrer tal tormento como seria doloroso para nós encarar o assunto. Se conhecêssemos essa pessoa, sempre que a víssemos uma tal visão seria terrível para nós. Iríamos todos levantar grande choro, e prantear por sua causa. Mas, infelizmente, em vez de uma pessoa só, é provável que muitos se lembrem destas exortações somente no inferno! E inúmeras pessoas podem estar no inferno em breve tempo, antes mesmo do ano terminar. E aqueles que estão agora com saúde, tranqüilos e seguros, podem chegar lá antes do amanhecer. Todos os que dentre vocês continuarem até o fim em estado natural pecaminoso, e que conseguirem ficar fora do inferno por mais tempo, estarão lá também em breve. Sua condenação não tardará; virá de súbito, e provavelmente para muitos de vocês, de maneira repentina. Vocês têm toda razão em se admirarem de não estar ainda no inferno. É ocaso, por exemplo, de alguns conhecidos seus, que não mereciam o inferno mais do que vocês e que antes aparentavam ter possibilidade de estarem vivos agora tanto quanto vocês. Para o caso deles já não há esperança. Estão clamando lá em extrema penúria e perfeito desespero. Mas aqui estão vocês, na terra dos vivos, cercados pelos meios de graça, tendo a grande oportunidade de obter a salvação. O que não dariam aquelas pobres almas condenadas, desesperadas, pela oportunidade de viver mais um só dia, como que vocês desfrutam neste momento!
E agora vocês têm uma excelente ocasião. Hoje é o dia em que Cristo abre as portas da misericórdia de par em par, e se coloca de pé clamando e chamando em alta voz aos pobres pecadores. Este é o dia em que muitos estão se reunindo a ele, se apressando em chegar ao reino de Deus. Inúmeros estão vindo diariamente do norte, sul, leste e oeste. Muitos que estavam até bem pouco tempo nas mesmas condições miseráveis que vocês estão felizes agora, com os corações cheios de amor por Aquele que os amou primeiro, e os lavou de seus pecados com seu próprio sangue, regozijando-se na esperança de ver a glória de Deus. Como é terrível ser deixado para trás num dia assim! Ver os outros se banqueteando, enquanto vocês estão penando e se definhando! Ver os outros se regozijando e cantando com alegria no coração, enquanto vocês só têm motivos para prantear por causa do sofrimento de seus corações, e de lamentar por causa das aflições e vossas almas! Como podem vocês descansar por um momento sequer em tal estado de alma? Será que vossas almas não são tão preciosas como as almas daqueles que, dia a dia, estão se juntando ao rebanho de Cristo?
Não existem, porventura, muitos que, apesar de estarem há longo tempo neste mundo, até hoje não nasceram de novo, e por isso são estranhos à comunidade de Israel, e nada têm feito durante a vida, a não ser acumular ira sobre ira para o dia do castigo? Oh! senhores, o caso de vocês é, sem dúvida, extremamente perigoso. A dureza de vossos corações e a vossa culpa são imensas. Acaso vocês não vêem como geralmente pessoas de vossa idade são deixadas para trás na dispensação da misericórdia de Deus? Vocês precisam refletir e despertar de vosso sono, pois jamais poderão suportar a fúria e a ira do Deus infinito. E vocês que são rapazes e moças, irão negligenciar este tempo precioso que desfrutam agora, quando tantos outros jovens de vossa idade estão renunciando às futilidades da juventude e acorrendo céleres a Cristo? Vocês têm neste momento uma oportunidade, mas se a desprezarem, sucederá o mesmo que agora está acontecendo com todos aqueles que gastaram em pecado os dias mais preciosos de sua mocidade, chegando a uma terrível situação de cegueira e insensibilidade. E vocês crianças, que não se converteram ainda, não sabem que estão indo para o inferno onde sofrerão a horrenda ira daquele Deus que agora está encolerizado contra vocês dia e noite? Será que vocês ficarão felizes em ser filhos do diabo, quando tantas outras já se converteram e se tornaram filhos santos e alegres do Rei dos reis?
Queira Deus todos aqueles que ainda estão fora de Cristo, pendentes sobre o abismo do inferno, quer sejam senhoras e senhores idosos, ou pessoas de meia idade, quer jovens ou crianças, que possam dar ouvidos agora aos chamados da Palavra e da providência de Deus. Este ano aceitável do Senhor que é um dia de grandes misericórdias para alguns, sem dúvida será um dia de extremo castigo para outros. Quando negligenciam suas almas os corações dos homens se endurece, e a sua culpa aumenta rapidamente. Podem estar certos, porém, que agora será como foi nos dias de João Batista. O machado está posto à raiz das árvores; e toda árvore que não produz fruto, deve ser cortada e lançada no fogo.
Portanto, todo aquele que está fora de Cristo, desperte e fuja da ira vindoura. A ira do Deus Todo-poderoso paira agora sobre todos os pecadores. Que cada um fuja de Sodoma: " Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a campina; foge para o monte, para que não pereças ."
“E assim, conhecendo o temor do Senhor, persuadimos aos homens”. “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. (II Coríntios 5.11-20; 6.2). “Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” . (Isaías 55.6-7). Amém.
Sermão pregado em 08 de Julho de 1741 em Enfield, Connecticut - EUA
“... A seu tempo, quando resvalar o seu pé” (Deuteronômio 32.35).
Nesse versículo os ímpios e incrédulos israelitas, que eram o povo visível de Deus, e que viviam debaixo de Sua graça, são ameaçados com a vingança do Senhor. Apesar de todas as obras maravilhosas que Deus operara em favor desse povo, este permanecia sem juízo e destituído de entendimento, como está escrito no versículo 28. e mesmo sob todos os cuidados do céu produziram fruto amargo e venenoso, conforme verificamos nos dois versículos anteriores.
A declaração que escolhi para meu texto, "A seu tempo, quando resvalar o seu pé", parece subentender as seguintes questões, relativas à punição e destruição que aqueles ímpios israelitas estavam sujeitos a sofrer:
1. Que eles estavam sempre expostos à destruição , assim como está sujeito a cair todo aquele que se coloca de pé, ou anda por lugares escorregadios. A maneira como serão destruídos vem aí representada pelo deslize de seus pés. A mesma citação encontramos no Sl 73.18-19, "Tu certamente os pões em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição".
2. Faz supor também que estavam sempre sujeitos a uma súbita e inesperada destruição, à semelhança daquele que anda por lugares escorregadios e a qualquer instante pode cair. O ímpio não consegue prever se, num momento, ficará de pé, ou se, em seguida, cairá. Quando cai, cai subitamente, sem aviso, como está escrito, também, no Sl 73.18-19, "Tu certamente os põe em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados! Totalmente aniquilados de terror!"
3. Outra coisa implícita no texto é que os ímpios estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pelas mãos de outrem, pois aquele que se detém ou anda por terrenos escorregadios não precisa mais do que seu próprio peso para cair por terra.
4. E também a razão pela qual ainda não caíram, e não caem, é por não haver chegado ainda o tempo determinado pelo Senhor. Pois está escrito que quando este tempo determinado, ou escolhido, chegar, seu pé irá resvalar. E então serão entregues à queda, para a qual já estão predispostos por causa do próprio peso. Deus não os susterá mais em lugares escorregadios, mas vai deixá-los sucumbir. Então, nesse exato momento, cairão em destruição, à semelhança daqueles que transitam em terrenos escorregadios, à beira de precipícios, e não conseguem se manter de pé sozinhos,caindo imediatamente e se perdendo ao serem abandonados.
Eu insistira agora num exame maior das seguintes palavras: não há nada, a não ser a boa vontade de Deus, que impeça os ímpios de caírem no inferno a qualquer momento.
Por mera boa vontade de Deus, me refiro à sua vontade soberana, ao seu livre arbítrio, o qual não é restringido por nenhuma obrigação, nem tolhido por qualquer tipo de dificuldade. Em última análise, sob qualquer aspecto, nada, exceto a vontade de Deus, tem poder para preservar os ímpios da destruição por um instante sequer.
A verdade dessa observação transparecerá nas seguintes considerações:
1. Não falta poder a Deus para lançar os ímpios no inferno a qualquer momento. A mão dos homens não é suficientemente forte quando Deus se levanta. O mais forte deles não tem poder para resistir-lhe, e ninguém consegue se livrar de suas mãos.Ele não só pode lançar os ímpios no inferno, como pode fazê-lo com a maior facilidade. Muitas vezes, uma autoridade terrena encontra grande dificuldade em dominar um rebelde, o qual acha meios de se fortalecer e se tornar mais poderoso pelo número de seguidores que alicia. Mas com Deus não é assim. Não há força que resista ao seu poder. Mesmo que as mãos se unam, e que enormes multidões de inimigos do Senhor juntem suas forças e se associem, serão todos facilmente despedaçados. São como montes de palha seca e leve diante de um furacão, ou como grande quantidade de restolho perto de chamas devoradoras. Nós achamos fácil pisar e esmagar uma lagarta que se arrasta pelo chão. Achamos fácil também cortar ou chamuscar um fio de linha fino que segura alguma coisa. Então, é simples para Deus, quando lhe apraz, lançar seus inimigos no inferno profundo. Quem somos nós, que imaginamos poder resistir Àquele ante cuja repreensão a terra treme, e perante quem as pedras tombam?
2. Eles merecem ser lançados no inferno. Assim, a justiça divina não se interpõe no caminho dos ímpios; nem faz objeção pelo fato de Deus usar seu poder para destruí-los a qualquer momento. Muito pelo contrário, a justiça fala assim da árvore que produz frutos maus: "... pode cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra?" (Lc 13.7). A espada da justiça divina está o tempo todo erguida sobre suas cabeças, e somente a mão de absoluta misericórdia e a mera vontade de Deus podem detê-la.
3. Os ímpios já estão debaixo da sentença de condenação ao inferno. Eles não só merecem ser lançados ali, mas a sentença da lei de Deus, esse preceito de eterna e imutável retidão que o Senhor estabeleceu entre si mesmo e a humanidade, também se coloca contra eles, e assim os mantém. Portanto, tais homens já estão destinados ao inferno. "...o que não crê já está julgado." (Jo 3.18). Assim, todo impenitente pertence, verdadeiramente, ao inferno. Ali é o seu lugar, ele é de lá, como temos em João 8.23: "vós sois cá debaixo" e para lá é destinado. Este é o lugar que a justiçam, a Palavra de Deus e a sentença de sua lei imutável reservam para ele.
4. Assim sendo, eles são objetos da ira e da indignação de Deus, que se manifesta através dos tormentos do inferno. E a razão de não descerem ao inferno agora mesmo não é pelo fato do Senhor, em cujo poder se encontram, estar menos irado com eles no momento, ou, pelo menos, não tão encolerizado como está com aquelas miseráveis criaturas a quem ele atormenta no inferno, as quais experimentam e sofrem ali a fúria de sua indignação. Sim, Deus se acha muito mais furioso com um grande número de pessoas que está vivendo na terra agora, talvez de modo mais tranqüilo e confortável, do que com muitos daqueles que estão experimentando as chamas do inferno. Portanto, a razão porque Deus ainda não abriu a sua mão e os liquidou, não é por ele não se importar com suas iniqüidades, ou não se ofender. O Senhor não se parece com eles, embora pensem que sim. A fúria de Deus arde contra eles, sua condenação não demora. O abismo está preparado, o fogo está pronto, a fornalha incandescente está ardendo, pronta para recebê-los. As chamas vermelhas queimam. A espada luminosa foi afiada e pesa sobre suas cabeças. O inferno abriu a sua boca debaixo deles.
5. O diabo está pronto a cair sobre os ímpios, para apoderar-se deles como coisa sua, no momento em que Deus o permitir. Eles lhe pertencem, suas almas encontram-se em seu poder e sob seu domínio. As Escrituras os apresentam como propriedade de satanás (Lc 11.21). Os demônios os espreitam, estão sempre ao seu lado, à sua direita, esperando por eles como leões esfaimados e enfurecidos que vêem a presa, aguardando a hora de agarrá-la, mas são restringidos por enquanto. Se Deus retirasse sua mão, a qual os refreia, eles cairiam sobre suas pobres almas num instante. A velha serpente está pronta a dar o bote. O inferno escancara sua boca para recebê-los. E se Deus permitisse, seriam rapidamente engolidos e consumidos.
6. Nas almas dos pecadores reinam aqueles princípios diabólicos que os faria arder agora mesmo no inferno, se não fosse a restrição imposta por Deus. Existe na própria natureza carnal do homem uma potencialidade alicerçando os tormentos do inferno. Há aqueles princípios corruptos que agem de maneira poderosa sobre eles, que só dominam completamente, e que são sementes do fogo do inferno. Esses princípios são ativos e poderosos, de natureza extremamente violenta, e se não fosse a mão restringidora do Senhor sobre eles, seriam logo destruídos. Iriam arder em chamas da mesma forma que a corrupção e a rebeldia fazem arder os corações das pessoas condenadas, gerando nelas os mesmos tormentos. As almas dos ímpios são comparadas nas Escrituras com o mar agitado (Is 57.20). Por enquanto Deus controla as iniqüidades deles pelo seu imenso poder, como faz com as ondas enfurecidas do mar, dizendo: "virão até aqui, mas não prosseguirão." Mas se Deus retirasse deles seu poder refreador, seriam todos tragados por elas. O pecado é a ruína e a miséria da alma. Ele é destrutivo pela própria natureza. E se Deus o deixasse sem controle, não seria preciso mais nada para tornar as almas humanas absolutamente miseráveis. A corrupção no coração do homem é algo cheio de fúria incontrolável e sem freio. Enquanto os pecadores viverem aqui, essa fúria será como fogo reprimido pelas restrições divinas. Ao passo que, se fosse liberada, incendiaria o curso natural da vida. E como o coração é um poço de pecado, este mesmo pecado iria imediatamente transformar a alma num forno incandescente ou numa fornalha de fogo e enxofre, caso não fosse restringido.
7. O fato de não haver sinais visíveis da morte por perto, não quer dizer que haja, por um momento, sequer segurança para os ímpios. O fato do homem natural ter boa saúde, de não prever que poderia deixar este mundo num minuto por um acidente, de não haver perigo visível à sua volta, nada disso lhe ser vê de segurança. Contínuas e inúmeras experiências humanas, em todas as épocas, nos mostram que não existem provas de que o homem não esteja à beira da eternidade, ou de que seu próximo passo não venha a ser no outro mundo. Os caminhos e meios, invisíveis e imprevistos, de chegar lá são incontáveis e inconcebíveis. Os homens não convertidos caminham por cima das profundezas do inferno, sobre uma superfície frágil onde existem varias áreas quebradiças, também invisíveis, as quais não conseguirão agüentar o seu peso. As flechas da morte voam ao meio-dia sem serem vistas. O olhar mais atento não pode distingui-las. Deus tem muitas maneiras diferentes e misteriosas de tirar os homens pecadores do mundo e despachá-los para o inferno. Não há nada que faça crer que o Senhor precise de ajuda de um milagre, ou que necessite se desviar do curso natural de sua providência para destruir qualquer pecador, a qualquer momento. Desde que todos os meios para fazer os ímpios deixarem este mundo estão de tal forma nas mãos de Deus, tão absoluta e universalmente sujeitos ao seu poder e determinação, segue-se que a ida dos pecadores para o inferno, a qualquer momento, depende simplesmente da vontade de Deus – quer usando meios ou não.
8. O cuidado e a prudência dos homens naturais em preservar suas vidas, ou o cuidado de terceiros em preservá-las, não lhes dá segurança por um momento sequer. A providência divina e a experiência humana testificam isso. Existem evidências claras de que a sabedoria dos homens não lhes é segurança contra a morte. Se não fosse assim, haveria uma diferença entre a morte prematura e inesperada de homens sábios e prudentes, e dos demais. Mas, o que realmente acontece? "Como morre o homem sábio? Assim como um tolo." (Ec 2.16).
9. Todo o esforço e artimanha dos ímpios para escaparem do inferno não os livram do mesmo, nem por um momento, pois continuam a rejeitar a Cristo, e portanto permanecem ímpios. Quase todos os homens naturais que ouvem falar do inferno alimentam a ilusão de que vão escapar dele. Quanto a sua própria segurança, confiam em si mesmos. Vangloriam-se do que fizeram, do que estão fazendo e do que pretendem fazer. Cada um traça seu próprio plano, pensa em evitar a condenação, e se vangloria e que irá tramar tão bem todas as coisas que seu esquema, com certeza, não falhará. Na verdade, eles ouvem dizer que poucos se salvam, e que a maior parte dos homens que já morreram foram para o inverno; mas cada um deles se imagina capaz de planejar melhor a própria fuga, do que os outros puderam fazer. Dentro de si mesmos dizem que não pretendem ir para esse lugar de tormento, e que pretendem tomar todo o cuidado necessário, esquematizando as coisas de tal forma na ao terem possibilidade de falhar.
Mas os insensatos filhos dos homens iludem-se miseravelmente quanto a seus próprios planos. A confiança que depositam na própria força e sabedoria é o mesmo que confiar na fragilidade de uma sombra. A maior parte daqueles que antes viveram debaixo da dispensação da graça, e agora estão mortos, sem dúvida alguma foram para o inferno. E não é por terem sido menos espertos do que os que ainda estão vivos, nem por terem planejado as coisas de tal forma que não lhes assegurou o escape. Se pudéssemos falar com eles, um a um, e perguntar-lhes se, quando vivos, esperavam ser vítimas de tamanha miséria, sem dúvida ouviríamos todos dizer: "Não, eu nunca pensei em vir para cá. Eu tinha esquematizado as coisas de maneira bem diferente. Pensei que iria conseguir algo melhor para mim, que meu plano era adequado. Pensei em me precaver melhor, mas tudo aconteceu de maneira tão repentina. Não esperava por isso naquela época, e nem daquela maneira. Mas tudo veio como um ladrão. A morte foi mais esperta que eu. A ira de Deus foi rápida demais para mim. Oh!, maldita insensatez! Eu me gabava, e me deleitava em sonhos vãos quanto ao que faria no futuro. E justamente quando eu mais falava de paz e segurança, me sobreveio uma súbita destruição."
10. Deus não se sujeita a nenhuma obrigação, nem a nenhuma promessa de manter o homem natural fora do inferno por um momento sequer. Ele não fez absolutamente nenhuma promessa de vida eterna, ou de libertação ou proteção da morte eterna, senão àquelas que estão contidas na aliança da graça – as promessas concedidas em Cristo, no qual todas as promessas são o sim e o amém. Mas obviamente os que não são filhos da aliança da graça não têm interesse na mesma, pois não crêem em nenhuma das suas promessas, e nem têm o menor interesse no Mediador dessa aliança.
Portanto, apesar de tudo que os homens possam imaginar ou pretender sobre promessas de salvação, devido suas lutas pessoais e buscas incessantes, deixamos claro e manifesto que qualquer desses esforços ou orações que se façam em relação à religião, será inútil. A não ser que creiam em Cristo, o Senhor, de modo nenhum Deus está obrigado a conservá-los fora da condenação eterna.
Então, os homens impenitentes estão detidos nas mãos de Deus por cima do abismo do inferno. Eles merecem o lago de fogo e para ele estão destinados. Deus se acha terrivelmente irritado. Seu furor para com eles é tão grande quanto para com aqueles que já estão agora sofrendo o suplício da fúria de sua ira no inferno. Esses ímpios não fizeram absolutamente nada para abrandar ou diminuir sua cólera, portanto o Senhor não está de modo algum preso a qualquer promessa de livramento, nem por um momento sequer. O diabo espera por eles, o inferno já escancarou a sua boca para tragá-los. O fogo latente em seus corações agrava-se agora querendo explodir. E como continuam sem o menor interesse no Mediador, não existem meios, ao alcance deles, que lhes possa dar segurança. Em suma, eles não têm refúgio e nada onde se segurar. O que os retém a cada instante é a absoluta boa vontade divina e a clemência sem compromisso, sem obrigação, de um Deus enraivecido.
Aplicação
Essa mensagem pode despertar as pessoas não convertidas para o significado do perigo que estão correndo. Isso que vocês escutaram é o caso de todo aquele que não está em Cristo. Esse mundo de tormento, isto é, o lago de enxofre incandescente, está aberto debaixo de vossos pés. Ali se encontra o terrível abismo de chamas que ardem com a fúria de Deus, e o inferno com sua imensa boca escancarada. E vocês não têm onde se apoiarem, nem coisa alguma onde se segurarem. Não existe nada entre vocês e o inferno, senão o ar, e só o poder e o favor de Deus podem vos suster.
Provavelmente vocês não têm consciência dessas coisas, acham que vão conseguir se livrar do inferno, e não vêem nisso tudo a mão de Deus. E olham as coisas ao seu redor, como o bom estado de vossa saúde física, os cuidados que tomam de vossas vidas, e os meios que usam para vossa própria preservação. Mas essas coisas não representam nada. Se Deus retirasse sua mal, elas de nada valeriam para impedir-vos a queda; elas valem tanto como a brisa tênue que tenta sustentar uma pessoa no ar.
Vossas iniqüidades vos fazem pesados como chumbo, pendentes para baixo, pressionados em direção ao inferno pelo próprio peso, e se Deus permitisse que caíssem vocês afundariam imediatamente, desceriam com a maior rapidez, e mergulhariam nesse abismo sem fundo. Vossa saúde, vossos cuidados e prudência, vossos melhores planos, toda a vossa retidão, de nada valeriam para sustentar-vos e conservar-vos fora do inferno. Seria como tentar segurar uma avalancha de pedras com uma teia de aranha. Se não fosse a misericórdia de Deus, a terra não suportaria vocês por um só momento, pois são uma carga para ela. A natureza geme por causa de vocês. A criação foi obrigada a se sujeitar à escravidão, involuntariamente, por causa da vossa corrupção. Não é com prazer que o sol brilha sobre vocês, para que sua luz vos alumie para pecarem e servirem a satanás. A terra não produz de bom grado os seus frutos para satisfazer vossa luxuria. Nem está disposta a servir de palco à exibição de vossas iniqüidades. Não é voluntariamente que o ar alimenta vossos corpos, mantendo viva a chama dos vossos corpos, enquanto vocês gastam a vida servindo os inimigos de Deus. As coisas criadas por Deus são boas e foram feitas para o homem, por meio delas, servisse ao Senhor. Não é com prazer que prestam serviço a outros propósitos, e gemem quando são ultrajadas ao servirem objetivos tão contrários à sua finalidade e natureza. E a própria terra vomitaria vocês se não fosse a mão soberana d'Aquele a quem vocês tanto tem ofendido. Eis aí as nuvens negras da ira de Deus pairando agora sobre vossas cabeças carregadas por uma tempestade ameaçadora, cheia de trovões. Não fosse a mão restringidora do Senhor, elas arrebentariam imediatamente sobre vocês. A misericórdia soberana de Deus, por enquanto, refreia esse vento impetuoso, do contrário ele sobreviria com fúria, vossa destruição ocorreria repentinamente, e vocês seriam como palha dispersada pelo vento.
A ira de Deus é como grandes águas represadas que crescem mais e mais, aumentam de volume, até que encontram uma saída. Quanto mais tempo a correnteza for reprimida, mais rápido e forte será o seu fluxo ao ser liberada. É verdade que até agora ainda não houve um julgamento por vossas obras más. A enchente da vingança de Deus encontra-se represada. Mas, por outro lado, vossa culpa cresce dava dez mais, e dia a dia vocês acumulam mais e mais ira contra si mesmos. As águas estão subindo continuamente, fazendo sua força aumentar mais e mais. Nada, a não ser a misericórdia de Deus, detém as águas, as quais não querem continuar represadas e forçam uma saída. Se Deus retirasse sua mão das comportas, elas se abririam imediatamente e o mar impetuoso da fúria e da ira de Deus iria se precipitar com furor inconcebível, e cairia sobre vocês com poder onipotente. E mesmo que vossa força fosse dez mil vezes maior do que é, sim, dez mil vezes maior do que a força do mais forte e vigoroso diabo do inferno, não valeria nada para resistir ou deter a ira divina.
O arco da ira de Deus já está preparado, e a flecha ajustada ao seu cordel. A justiça aponta a flecha para vosso coração, e estica o arco. E nada, senão a misericórdia de Deus – um Deus irado! – que não se compromete e a nada se obriga, impede que a flecha se embeba agora mesmo do vosso sangue. Assim estão todos vocês que nunca experimentaram uma transformação real em vossos corações pela ação poderosa do Espírito do Senhor em vossas almas – todos vocês que não nasceram de novo, nem foram feitos novas criaturas, ressurgindo da morte do pecado para um estado de luz, e para uma vida nova nunca experimentada antes. Por mais que vocês tenham modificado a conduta em muitas coisas, e tenham possuído simpatias religiosas, e até mantido uma forma pessoal de religião com vossas famílias e em particular, indo à casa do Senhor, sendo até severos quanto a isso, mesmo assim vocês estão nas mãos de um Deus irado. Somente sua misericórdia vos livra de ser, agora, neste momento, tragados pela destruição eterna. Por menos convencidos que vocês estejam agora quanto às verdades ouvidas, no porvir serão plenamente convencidos. Aqueles eu já se foram, e que estavam na mesma situação que a vossa, percebem que foi exatamente isso que lhes aconteceu, pois a destruição caiu de repente sobre muitos deles, quando menos esperavam, e quando mais afirmavam vier em paz e segurança. Agora eles vêem que aquelas coisas nas quais puseram sua confiança para obter paz e segurança eram nada mais que uma brisa ligeira e sombras vazias.
O Deus que vos mantém acima do abismo do inferno vos abomina; ele está terrivelmente irritado e seu furor contra vocês queima como fogo. Ele vê vocês como apenas dignos de serem lançados no fogo. E seus olhos são tão puros que não podem tolerar tal visão. Vocês são dez mil vezes mais abomináveis a seus olhos do que é a mais odiosa das serpentes venenosas para olhos humanos. Vocês o têm ofendido infinitamente mais do que qualquer rebelde obstinado ofenderia a um governante. No entanto, nada, a não ser a sua mão, pode impedir-vos de cair no fogo a qualquer momento. O fato de vocês não terem ido para o inferno a noite passada e de terem tido permissão para acordar ainda aqui neste mundo, depois de terem fechado os olhos ontem para dormir, atribui-se ao mesmo favor. Não existe outra razão porque vocês não foram lançados no inferno ao se levantarem pela manhã, a não ser o fato da mão de Deus ter-vos sustentado. E não existe outra razão porque vocês não caiam no inferno neste exato momento.
Oh!, pecador, pense no perigo terrível que se encontra! É sobre uma grande fornalha de furor, sobre um abismo imenso e sem fim, cheio do fogo da ira, que você está pendurado, seguro pela mão de Deus, cujo furor acha-se tão inflamado contra você, como contra muitas pessoas já condenadas no inferno. Você está suspenso por uma linha tênue, com as chamas da cólera divina lampejando à tua volta, prontas para atearem fogo e queimar-te por inteiro. E você continua sem interesse no Mediador, sem nada onde se agarrar para poder se salvar, nada que possa afastar as chamas da cólera divina, nada de teu próprio, nada que tenha feito ou possa vir a fazer, para persuadir o Senhor a poupar tua vida por um minuto sequer. Considere, então, mais detidamente, vários aspectos dessa cólera que te ameaça com tão grande perigo.
1. A quem pertence essa ira? É a ira do Deus infinito. Se fosse somente a ira humana, mesmo a do governante mais poderoso, comparativamente seria considerada como coisa pequena. A ira dos reis é bastante temida, principalmente dos monarcas absolutos, que possuem os bens e as vidas de seus súditos inteiramente sob o seu poder, para serem usados quando bem entenderem. "Como o bramido do leão é o terror do rei; o que lhe provoca a ira peca contra a sua própria vida." (Pv 20.2). O súdito que enfurece este tipo de governante arbitrário, sofre os maiores tormentos que se possa conceber, ou que o poder humano possa infligir. Porém, os maiores principados da terra, em toda a sua grandeza, majestade e poder, mesmo revestidos de seus grandes terrores, não são mais do que vermes débeis e desprezíveis que rastejam no pó, quando comparados com o grande e todo-poderoso criador e rei dos céus e da terra. Mesmo quando estão enraivecidos e sua fúria chega ao máximo, é muito pouco o que podem fazer. Os reis da terra são, perante Deus, como gafanhotos. Valem menos que nada. Tanto o seu amor quanto o seu ódio são desprezíveis. A ira do grande Rei dos reis é muito mais terrível do que a deles, tal como é maior a sua majestade. "Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer". (Lc 12.4-5).
2. É à ferocidade de sua ira que vocês estão expostos. Lemos, com freqüência, sobre a ira de Deus, como por exemplo em Is 58.18. "Segundo as obras deles, assim retribuirá; furor aos seus adversários." E também em Is 66.15 "Porque, eis que o Senhor virá em fogo, e os seus carros como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor, e a sua repreensão em chamas de fogo." E assim é em muitos outros lugares da Bíblia. Lemos também em ap 19.15: "... o lagar do vinho do furor da ira do Deus todo-poderoso." Essas palavras são incrivelmente aterradoras. Se estivesse escrito apenas a "ira de Deus", isso já nos faria supor algo bastante temível. Mas está escrito "o furor da ira de Deus", ou seja, a fúria de Deus, o furor de Jeová! Oh!, quão terrível deve ser esse furor! Quem pode exprimir ou conceber o que essas palavras contêm? Mas não é apenas isso que está escrito, e sim "o furor da ira do Deus Todo-Poderoso." Essas palavras dão a entender que uma grande manifestação de seu poder onipotente vai acontecer. Através dela ele infligirá aos homens todo o furor de sua ira. Assim como os homens costumam manifestar sua própria força através do furor de sua ira, a onipotência divina irá, da mesma forma, se enfurecer e se manifestar. Então, qual será a conseqüência de tudo isso? O que será do pobre verme que vier a sofrer todo este mal? Que mão serão tão fortes, e que coração conseguirá suportar tanto furor? A que terrível, inexprimível, inconcebível abismo de miséria irá chegar a pobre criatura humana que será vítima disso tudo!
Pensem bem, vocês que estão aqui agora, e que permanecem em estado pecaminoso. O fato de Deus vir a efetivar o furor da sua ira, torna implícito que ele infligirá esse castigo sem compaixão. Quando Deus olhar a indescritível aflição do vosso estado, e vir como vossos tormentos são absolutamente desproporcionais à vossa força, e como vossas pobres almas estão esmagadas, imersas em trevas eternas, não terá compaixão de vocês, não ira deter a execução de sua ira, ou, de forma alguma, tornar mais leve sua mão. Nessa hora Deus não usará de misericórdia para com vocês, nem conterá seu vento impetuoso. Ele não terá consideração para com o vosso bem estar, e nem irá evitar que vocês sofram. Na verdade, fará com que sofram na medida exata que sua rigorosa justiça vier a requerer. Nada será modificado só pelo fato de ser difícil para vocês suportarem. "Pelo que também eu os tratarei com furor; os meus olhos não pouparão, nem terei piedade. Ainda que me gritem aos ouvidos em alta voz, nem assim os ouvirei." (Ez 8.18). Deus está pronto, agora, a usar de compaixão com vocês. Hoje é o dia da misericórdia. Vocês podem clamar neste instante, e ter esperanças de alcançar sua graça. Mas quando o dia da misericórdia passar, vosso lamento, o pranto mais doloroso, os gritos, serão em vão. No que diz respeito ao vosso bem estar, vocês estarão completamente perdidos e alienados de Deus. O Senhor não terá outra opção senão a de entregar-vos ao sofrimento e à miséria. E vocês continuarão não tendo outra perspectiva, pois serão vasos de ira, preparados para a destruição. Não haverá outro uso qualquer para tais vasos, senão o de enchê-los da ira de Deus. Quando clamarem ao Senhor, ele estará tão longe de consolar-vos que, inclusive, está escrito a este respeito que Deus irá, simplesmente, 'rir e zombar' de vocês (Pv 1.25-26).
Vejam quão terríveis são estas palavras do grande Senhor: "O lagar eu o pisei sozinho, e dos povos nenhum homem se achava comigo; pisei as uvas na minha ira; no meu furor as esmaguei, e o seu sangue me salpicou as vestes e me manchou o traje todo." (Is 63.3). É quase impossível se conceber palavras que tragam em si uma manifestação maior destas três coisas: desprezo, ódio e fúria de indignação. Se clamarem a Deus por consolo, ele estará longe de querer vir consolar-vos, ou de querer demonstrar-vos interesse ou favor. Ao contrario, o Senhor simplesmente irá esmagar-vos sob seus pés. E apesar de saber que, ao pisotear-vos, vocês não poderão suportar o peso de sua onipotência, ainda assim ele não vai se importar, e irá esmagar-vos debaixo de seus pés, sem piedade, espremendo o vosso sangue e fazendo com que o mesmo espirre longe, manchando suas vestes, maculando seu traje. Ele não só irá odiar-vos, como devotará a vós o maior desprezo. Lugar algum será considerado próprio para vocês, a não ser debaixo de seus pés, para serem pisados como a lama das ruas.
3. A miséria a que vocês estão sujeitos é aquela que Deus vos infligirá, a fim de demonstrar a força da ira do Senhor, Deus tem em seu coração a intenção de mostrar aos anjos e aos homens, não só a excelência do seu amor, como a severidade de seu furor. Às vezes os governantes da terra resolvem mostrar a força de sua ira através de castigos extremos que mandam infligir sobre aqueles que os enfurecem. Nabucodonosor, o poderoso e arrogante rei do império dos caldeus, demonstrou seu furor quando, ao se irritar com Sadraque, Mesaque e Abdenego, ordenou que se acendesse a fornalha de fogo ardente sete vezes mais do que o normal. Como era de se esperar, a fornalha foi aquecida intensamente, até atingir o mais alto grau que poderia produzir. O grande Deus também quer revelar a sua ira, e exaltar sua tremenda majestade e grandioso poder através dos sofrimentos desmedidos de seus amigos. "Que diremos, pois, se Deus querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos da ira, preparados para a perdição." (Romanos 9.22). E visto que esse é o seu desígnio e o que ele determinou, ou seja, mostrar quão terrível e ilimitada é a ira, a fúria e a indignação do Senhor, ele o mostrará realmente. Será realizado algo horrendo, muito terrível. Quando o grande e furioso Deus tiver se levantado e executado sua terrível vingança sobre o mísero pecador, e o desgraçado estiver sofrendo o peso e o poder infinito de sua indignação, então Deus chamará o universo inteiro para contemplar a imensa majestade e o tremendo poder que nele existe. "Os povos serão queimados como se queima a cal, como espinhos cortados arderão no fogo." "Ouvi vós os que estais longe, o que tenho feito; e vós, que estais perto, reconhecei o meu poder. Os pecadores em Sião se assombram, o tremor se apodera dos ímpios; e eles perguntam: quem dentre nós habitará com o fogo devorador? Quem dentre nós habitará com chamas eternas?" (Isaías 33.12-14).
Assim será com vocês que não são convertidos, se permanecerem neste estado. O poder infinito, a majestade e a grandiosidade do Deus onipotente serão exaltados em vocês através da inexprimível força dos tormentos que vos sobrevirão. Vocês serão atormentados na presença dos santos anjos e na presença do Cordeiro. E quando estiverem nesse estado de sofrimento, os gloriosos habitantes do céu sairão para contemplar esse espetáculo horrendo, e verão como é a fúria do Todo-poderoso. E quando virem todas essas coisas, se prostrarão e adorarão seu grande poder e majestade. "E será que de uma lua nova à outra, e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor. Eles sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne." (Isaías 66.23-24).
4. É uma ira eterna. Já seria algo terrível sobre o furor e a cólera do Deus Todo-poderoso por um momento. Mas vocês terão de sofrê-la por toda a eternidade. Essa intensa e horrenda miséria não terá fim. Ao olhar para o futuro, vocês verão à frente uma interminável eternidade, de duração infinita, que irá devorar vossos pensamentos e assombrar vossas almas. E vocês irão se desesperar, com certeza, por não conseguirem nenhum livramento, termo, alívio ou descanso para tanta dor. Saberão também, que terão de sofrer até à última gota por longos séculos, por milhões e milhões de anos, lutando e pelejando contra essa vingança inclemente e todo-poderosa. Então, depois de passar por tudo isso, quando tantos séculos vos tiverem consumido, saberão que tudo não passa apenas de uma gota d'água quando comparado ao que ainda resta. Portanto, vosso castigo será, com certeza, infinito. Oh!, quem poderia exprimir o estado de uma alma em tais circunstâncias? Tudo o que pudermos dizer sobre o assunto, vai nos dar, apenas, uma débil e frágil visão da realidade. Ela é inexprimível, inconcebível, pois "Quem conhece o poder da ira de Deus?"
Que horrendo é o estado daqueles que diariamente, a cada hora, se encontram em perigo de sofrer tamanha ira e infinita miséria! Mas esse é o caso sinistro de toda alma que ainda não nasceu de novo, por mais moral, austera, sóbria e religiosa que seja. Queira Deus vocês pensassem em todas essas coisas, sejam jovens ou velhos. Há razões de sobra para acreditar que muitos daqueles que ouviram o evangelho certamente estarão expostos a esse tormento por toda a eternidade. Não sabemos quem são eles, nem o que pensam. Pode ser que estejam tranqüilos agora, escutando esta mensagem sem se perturbarem muito, e que estejam até se gabando de que, no caso deles, conseguirão escapar. Se soubéssemos que dentre os nossos conhecidos existe uma pessoa, uma só, sujeita a sofrer tal tormento como seria doloroso para nós encarar o assunto. Se conhecêssemos essa pessoa, sempre que a víssemos uma tal visão seria terrível para nós. Iríamos todos levantar grande choro, e prantear por sua causa. Mas, infelizmente, em vez de uma pessoa só, é provável que muitos se lembrem destas exortações somente no inferno! E inúmeras pessoas podem estar no inferno em breve tempo, antes mesmo do ano terminar. E aqueles que estão agora com saúde, tranqüilos e seguros, podem chegar lá antes do amanhecer. Todos os que dentre vocês continuarem até o fim em estado natural pecaminoso, e que conseguirem ficar fora do inferno por mais tempo, estarão lá também em breve. Sua condenação não tardará; virá de súbito, e provavelmente para muitos de vocês, de maneira repentina. Vocês têm toda razão em se admirarem de não estar ainda no inferno. É ocaso, por exemplo, de alguns conhecidos seus, que não mereciam o inferno mais do que vocês e que antes aparentavam ter possibilidade de estarem vivos agora tanto quanto vocês. Para o caso deles já não há esperança. Estão clamando lá em extrema penúria e perfeito desespero. Mas aqui estão vocês, na terra dos vivos, cercados pelos meios de graça, tendo a grande oportunidade de obter a salvação. O que não dariam aquelas pobres almas condenadas, desesperadas, pela oportunidade de viver mais um só dia, como que vocês desfrutam neste momento!
E agora vocês têm uma excelente ocasião. Hoje é o dia em que Cristo abre as portas da misericórdia de par em par, e se coloca de pé clamando e chamando em alta voz aos pobres pecadores. Este é o dia em que muitos estão se reunindo a ele, se apressando em chegar ao reino de Deus. Inúmeros estão vindo diariamente do norte, sul, leste e oeste. Muitos que estavam até bem pouco tempo nas mesmas condições miseráveis que vocês estão felizes agora, com os corações cheios de amor por Aquele que os amou primeiro, e os lavou de seus pecados com seu próprio sangue, regozijando-se na esperança de ver a glória de Deus. Como é terrível ser deixado para trás num dia assim! Ver os outros se banqueteando, enquanto vocês estão penando e se definhando! Ver os outros se regozijando e cantando com alegria no coração, enquanto vocês só têm motivos para prantear por causa do sofrimento de seus corações, e de lamentar por causa das aflições e vossas almas! Como podem vocês descansar por um momento sequer em tal estado de alma? Será que vossas almas não são tão preciosas como as almas daqueles que, dia a dia, estão se juntando ao rebanho de Cristo?
Não existem, porventura, muitos que, apesar de estarem há longo tempo neste mundo, até hoje não nasceram de novo, e por isso são estranhos à comunidade de Israel, e nada têm feito durante a vida, a não ser acumular ira sobre ira para o dia do castigo? Oh! senhores, o caso de vocês é, sem dúvida, extremamente perigoso. A dureza de vossos corações e a vossa culpa são imensas. Acaso vocês não vêem como geralmente pessoas de vossa idade são deixadas para trás na dispensação da misericórdia de Deus? Vocês precisam refletir e despertar de vosso sono, pois jamais poderão suportar a fúria e a ira do Deus infinito. E vocês que são rapazes e moças, irão negligenciar este tempo precioso que desfrutam agora, quando tantos outros jovens de vossa idade estão renunciando às futilidades da juventude e acorrendo céleres a Cristo? Vocês têm neste momento uma oportunidade, mas se a desprezarem, sucederá o mesmo que agora está acontecendo com todos aqueles que gastaram em pecado os dias mais preciosos de sua mocidade, chegando a uma terrível situação de cegueira e insensibilidade. E vocês crianças, que não se converteram ainda, não sabem que estão indo para o inferno onde sofrerão a horrenda ira daquele Deus que agora está encolerizado contra vocês dia e noite? Será que vocês ficarão felizes em ser filhos do diabo, quando tantas outras já se converteram e se tornaram filhos santos e alegres do Rei dos reis?
Queira Deus todos aqueles que ainda estão fora de Cristo, pendentes sobre o abismo do inferno, quer sejam senhoras e senhores idosos, ou pessoas de meia idade, quer jovens ou crianças, que possam dar ouvidos agora aos chamados da Palavra e da providência de Deus. Este ano aceitável do Senhor que é um dia de grandes misericórdias para alguns, sem dúvida será um dia de extremo castigo para outros. Quando negligenciam suas almas os corações dos homens se endurece, e a sua culpa aumenta rapidamente. Podem estar certos, porém, que agora será como foi nos dias de João Batista. O machado está posto à raiz das árvores; e toda árvore que não produz fruto, deve ser cortada e lançada no fogo.
Portanto, todo aquele que está fora de Cristo, desperte e fuja da ira vindoura. A ira do Deus Todo-poderoso paira agora sobre todos os pecadores. Que cada um fuja de Sodoma: " Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a campina; foge para o monte, para que não pereças ."
“E assim, conhecendo o temor do Senhor, persuadimos aos homens”. “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. (II Coríntios 5.11-20; 6.2). “Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” . (Isaías 55.6-7). Amém.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Apascentando ovelha ou entretendo bode
C.H. Spurgeon
* * *
Um mal acontece no arraial professo do Senhor, tão flagrante na sua impudência, que até o menos perspicaz dificilmente falharia em notá-lo. Este mal evoluiu numa proporção anormal, mesmo para o erro, no decurso de alguns anos. Ele tem agido como fermento até que a massa toda levede.
O demônio raramente fez algo tão engenhoso, quanto insinuar à Igreja que parte da sua missão é prover entretenimento para o povo, visando alcançá-los. De anunciar em alta voz, como fizeram os puritanos, a Igreja, gradualmente, baixou o tom do seu testemunho e também tolerou e desculpou as leviandades da época. Depois, ela as consentiu em suas fronteiras. Agora, ela as adota sob o pretexto de alcançar as massas.
Meu primeiro argumento é que prover entretenimento ao povo, em nenhum lugar das Escrituras, é mencionado como uma função da Igreja. Se fosse obrigação da Igreja, porque Cristo não falaria dele? "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura" (Lc.16:15). Isto é suficientemente claro. Assim também seria, se Ele adicionasse "e provejam divertimento para aqueles que não tem prazer no evangelho". Tais palavras, entretanto, não são encontradas. Nem parecem ocorrer-Lhe.
Em outra passagem encontramos: "E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres"(Ef.4:11). Onde entram os animadores? O Espírito Santo silencia, no que se refere a eles. Os profetas foram perseguidos por agradar as pessoas ou por oporem-se a elas?
Em segundo lugar, prover distração está em direto antagonismo ao ensino e vida de Cristo e seus apóstolos. Qual era a posição da Igreja para com o mundo? "Vós sois o sal da terra" (Mt.5:13), não o doce açúcar – algo que o mundo irá cuspir, não engolir. Curta e pungente foi a expressão: "Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos"(Mt.8:22). Que seriedade impressionante!
Cristo poderia ter sido mais popular, se tivesse introduzido mais brilho e elementos agradáveis a sua missão, quando as pessoas O deixaram por causa da natureza inquiridora do seu ensino. Porém, eu não O escuto dizer: "Corre atrás deste povo Pedro, e diga-lhes que teremos um estilo diferente de culto amanhã; algo curto e atrativo, com uma pregação bem pequena. Teremos uma noite agradável para eles. Diga-lhes que, por certo, gostarão. Seja rápido, Pedro, nós devemos alcançá-los de qualquer jeito!".
Jesus compadeceu-se dos pecadores, lamentou e chorou por eles, mas nunca pretendeu entretê-los.
Em vão as epístolas serão examinadas com o objetivo de achar nelas qualquer traço do evangelho do deleite. A mensagem que elas contêm é: "Saia, afaste-se, mantenha-se afastado!"
Eles tinham enorme confiança no evangelho e não empregavam outra arma.
Depois que Pedro e João foram presos por pregar o evangelho, a Igreja reuniu-se em oração, mas não oraram: "Senhor, permite-nos que pelo sábio e judicioso uso da recreação inocente, possamos mostrar a este povo quão felizes nós somos". Dispersados pela perseguição, eles iam por todo mundo pregando o evangelho. Eles "viraram o mundo de cabeça para baixo". Esta é a única diferença! Senhor, limpe a tua Igreja de toda futilidade e entulho que o diabo impôs sobre ela e traze-a de volta aos métodos apostólicos.
Por fim, a missão do entretenimento falha em realizar o objetivo a que se propõe. Ela produz destruição entre os jovens convertidos. Permitam que os negligentes e zombadores, que agradecem a Deus porque a Igreja os recebeu no meio do caminho, falem e testifiquem! Permitam que falem os negligentes e zombadores, que foram alcançados por um evangelho parcial; que falem os cansados e oprimidos que buscaram paz através de um concerto musical. Levante-se e fale o bebado para quem o entretenimento na forma de drama foi um elo no processo de sua conversão! A resposta é óbvia: a missão de promover entretenimento não produz convertidos verdadeiros.
O que os pastores precisam hoje, é crer no conhecimento aliado a espiritualidade sincera; um jorrando do outro, como fruto da raiz. Necessitam de doutrina bíblica, de tal forma entendida e experimentada, que ponham os homens em chamas.
Biblioteca Reformada
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